sábado, 9 de abril de 2011

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF...



Eu escrevo desde 1996. Comecei com um diário tolo sobre uma jovem e dissimulada donzela por quem era encantado, amor o qual eu considerava impossível, irrealizável. Ou, se preferir o termo clicherizado, um amor platônico. Era um diário que eu escrevia para Deus. Ele respondeu ao meu coração me fazendo enxergar a verdadeira face por trás dos olhos verdes de minha donzela, endurecendo um pouquinho o mesmo coração juvenil com uma vontade mais ardente, o que depois eu iria descobrir ter sido o início da longa caminhada que me levaria àquela que é hoje minha esposa.

“Voa como uma borboleta e pica como uma abelha.” Era o que diziam de Mohamed Ali, o lendário lutador de boxe outrora chamado Cassius Clay. E é o que penso de sua escrita. Do longínquo 96 (quando, imagino, você nem tinha nascido ainda) até hoje tento responder uma questão fundamental e difícil para aqueles que escrevem.

A questão, segundo um velho amigo meu, é: estamos amadurecendo ou endurecendo? São coisas que só o futuro pode dizer. Escrever é o modo que temos para comparar o que pensávamos com o que pensamos e constatarmos a verdade sobre o que as intempéries da vida fazem com nossa mentalidade.

O que acho completamente desconcertante nos seus textos é o modo delicado e cândido com o qual você destila um cinismo lírico, uma arrogância, uma petulância muito serena contra o destino ao qual você se opõe. Isso seria, a meu ver, genial, se eu não lhe conhecesse. Desde o longínquo 96 busco a maturidade necessária para controlar características tão paradoxais na expressão verbal, mas o amadurecimento que eu busco é justamente o endurecimento que lhe arrebata. Tão natural. Quase insensível, mas muito, muito tocante.

Há algo de Rimbaud. Muito de Wilde. E você é tão jovem...

Minha escritora favorita de todo o mundo é a Virginia Woolf. Lembro que me apaixonei por Virginia porque ela tinha exatamente as mesmas características que admiro na sua literatura. E hoje, você é a escritora que mais me dá prazer de ler. Você escreve pouco. São pequenos textos, pequenos lampejos de um espírito intempestivo e de uma mente que parece trabalhar a mil num universo onde todas as ondas se propagam numa velocidade de lentidão aterradora. Hoje você é minha Virginia. Te ler é ter aquela dorzinha legal de quando o pé fica dormente. Você tenta nem respirar para que a sensação não se espalhe por seu corpo e te tome por completo, mas algo lá no fundo quer é se jogar completamente dentro dela.

Eu só queria que tudo o que te deu isso fosse ficção apenas. Que a violência fosse inventada. Que as feridas fossem tatuagens. Que as lágrimas fossem suor e a inquietude fosse só simples, pura e incontrolável excitação.

O chato é que a gente escreve justamente por que a coisa toda não é assim...

Se você pudesse encontrar um poço de leveza, se achasse o caminho, eu poderia acreditar que o Deus da chuva traz esse choro do céu pra lavar nossas almas. E quando a chuva passasse o Sol traria nova vida ao espírito.

Vai ver que é assim. Vai ver que é isso que Ele tem a nos dizer todos os dias. Mas o mundo nos faz enxergar outras coisas. Se você fosse leve, eu deixaria de enxergar o mundo que fere. Porque suas palavras são doces, mas falam de coisas amargas.

Queria que você fosse leve. Para que eu também pudesse ser.




2 comentários :

Carlos Alberto disse...

A escrita é uma coisa que eu queria que nunca me deixasse, que nunca diminuísse dentro de mim como tem acontecido com o tempo que passa. É esse "amadurecimento endurecendo", coisas que de repente, sinto que nem tenho muito a dizer. E quando coisas assim acontecem, mesmo com certa tristeza, lembro que ainda tenho muito o que ler de pessoas que tem realmente o que dizer.

Graças aos céus que tens o dom da escrita companheiro Ed, e que isso nunca te deixe, nem se quer afaste-se um pouco de ti.

myllis L disse...

96, eu tinha nascido sim! rs.
É.. Não conheço Virginia Woolf, fiz neste momento uma pequena pesquisa, e apesar de pequena, nela pude sentir certa tristeza no ar. Quem escreve sempre tem uma essência mórbida, nem que seja um pouco. Suicídio aos 59 anos.. Depressão. É, muito tenho dela. Só espero que não tenhamos um mesmo fim (e não teremos!).
Leveza... E se eu disser que busco a leveza, você acreditaria? Eu busco. Mas se ela corre de mim, que posso eu fazer? Só continuar a correr, esperando um dia alcançá-la ou esperando a boa vontade dela de deixar-me alcançá-la! rs.
Até lá, a gente se vira com o que tem, né? Até lá, deixemos esse endurecimento tomar conta...
Obrigada pelas críticas, Ed, vindo de você são muito mais do que simples críticas! E se eu tenho "a manha" pra escrever, nem sei o que dizer de você.

Abs, Myllis.