sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BEIJA-FLOR ANIQUILADO


Há uns dias eu voltava da casa da minha sogra com minha esposa. Esperávamos o ônibus na Praça do Carlito, por volta das nove horas, quando ela me chamou atenção para uma cena triste. Um imbecil em sua moto acabara de desferir um soco na boca de uma moça com o filho nos braços. Pelo jeito como discutiam, podia-se imaginar que tinha um “relacionamento”, sei lá, talvez fossem casados. O fato é que fiquei terrivelmente incomodado com aquilo (quem não ficaria?!). Peguei meu celular e disquei o número da polícia, mas minha esposa não deixou. Claro que ela também ficou horrorizada, mas não quis que eu me metesse. Logicamente eu não iria lá, tirar satisfações com aquele covarde idiota. Afinal de contas, ele dava dois de mim e meu incisivo esquerdo não tem raiz profunda, não tô nem um pouco afim de ficar banguela neste momento. No entanto, aquilo era revoltante! Bater numa mulher já é uma covardia sem tamanho (embora saibamos que existem mulheres capazes de sair no pau com um tipo daqueles e se darem muito bem). Mas bater numa mulher com um bebê nos braços!


Apesar dos protestos de minha esposa, disse que se ele batesse novamente nela eu ligaria. Ele bateu. Deu mais um tapa e puxou o cabelo dela. Não agüentei e disquei novamente. Ela protestou mais uma vez e me agarrou pra que eu não completasse a ligação. Ela argumentou comigo dizendo que se a polícia chegasse nós teríamos de depor e fazer todos aqueles procedimentos de testemunha, o que possivelmente nos poria em risco.

O ônibus chegou nessa hora e embora eu tenha me esforçado para não ficar puto com ela, subi vermelho de raiva por não ter resistido ao argumento, certo de que iria deixar mais um covarde impune. Isso foi suficiente para que brigássemos, pois na opinião das pessoas a quem narramos o episódio, não tínhamos nada a ver com aquelas pessoas e se a moça apanhou foi por que quis, uma vez que não quisesse não teria se envolvido com um sujeito como aquele.

Eu estudo Enfermagem e meu tema de monografia (não por causa só deste caso, é lógico) será sobre violência contra a mulher. Por conta da faculdade já li vários artigos a respeito, livros, já visitei instituições e conversei com várias vítimas e sei que as coisas não são tão simples assim. Uma mulher não apanha por que é safada, sem vergonha ou por que gosta de homem que bate. Tudo isso envolve uma série de fatores, um contexto de vida em que a ela se vê não só vítima da violência, mas encurralada num ciclo de fraqueza psicológica, sentimentos e dependência financeira. Contexto esse que não foi escolhido , mas imposto a ela por sua história de vida.



As pessoas tendem a simplificar a coisa toda. Talvez para se manter em sua zona de conforto, para não se envolver com uma causa, para não se comprometer. Nisso, esses covardes, que não raro se tornam assassinos em tragédias anunciadas, seguem firmes reproduzindo a violência. Mas é mais fácil pensarmos que “não temos nada a ver com isso”, que a culpa é da vítima (como se ela estivesse realmente satisfeita com a situação, e não amedrontada por ameaças, pela dependência ou envergonhada pela humilhação).

Até agora minha esposa não sabe que não fiquei com raiva dela por ter me impedido de ligar para a polícia. Fiquei com raiva de mim mesmo por ter me deixado dobrar pelo conformismo de não me envolver. Eu sabia que poderia ter ajudado e muito. Assim como sabemos que podemos ajudar um pouco sempre. No fundo todos nós sabemos que podemos melhorar essa droga de mundo se quisermos. Mas não queremos...

Sei que talvez eu tivesse sido capaz de mostrar para aquela moça que ela e seu filho merecem e podem ter uma vida melhor. E isso faria toda a diferença. Mas é assim que a gente leva a vida. Sempre achando que é melhor não se meter nos problemas do mundo, pois isso só aumentaria os nossos próprios problemas como se não vivêssemos nesse mundo, como se não precisássemos uns dos outros. A gente tem todo dia a chance de transformar a vida das pessoas em algo melhor. Motivos não faltam para que tomemos a atitude de agir na hora certa e fazer o que tem de ser feito, mesmo que saibamos que sozinhos não salvaremos o mundo da destruição para a qual ele se dirige inexoravelmente. A velha história do beija-flor que quer apagar o incêndio...

Se algum dia você, assim como eu, teve uma dessas chances de se revoltar contra a injustiça, a covardia e a desonestidade e, como eu, não agiu sob uma justificativa qualquer e, como eu está se sentindo um grande e enorme pedaço de merda ambulante, não se preocupe: é exatamente isso que você é. E seu sentimento de culpa, assim como o meu, não vai consertar as coisas.

Não faço idéia do que tenha acontecido com a moça e seu filho. Provavelmente a mesma coisa que acontece com milhares de vítimas de violência doméstica. Voltam para casa para continuar convivendo com o agressor, temendo por sua vida e pela de seu filho, com vergonha da cena triste por que passou, rezando para que não volte a acontecer. Mas vai acontecer.



Se você conhece uma mulher que vive em situação de violência e não quer ser um enorme pedaço de merda que anda: 0800 2800804. Faça uma denúncia anônima.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Los Quatro Guapos



Havíamos comprado nosso primeiro videocassete naquele ano e só havia uma locadora no bairro. Então, todo sábado tínhamos de esperar e rezar para que nosso pai não bebesse para poder ir com a gente alugar filmes e isso era o máximo (pense!).

Eu me lembro daquela noite de 1993. Novembro ou dezembro, acho. Eu lia um gibi do Capitão América na calçada e estava ansioso para nosso programa de fim de semana preferido : alugar filmes na locadora. Na verdade,era o único programa possível naquela época de total dependência do dinheiro dos meus pais! No meu bairro sempre foi pobre em diversões para garotos da minha idade que gostavam de quadrinhos, ficção científica e não se misturava com aqueles outros meninos que diziam nomes feios e batiam uns nos outros.

Nesse dia, eu perturbei meu pai para que fôssemos logo, mas ele disse que só iria após o In Concert. Os in concert´s eram programas de uma rádio, não lembro qual, em que eles apresentavam, por uma hora ininterrupta, músicas de determinado artista. Como não tinha outra alternativa, sentei com meu gibi e esperei. Quando o programa começou, meu pai correu e pegou uma fita k7 para gravar. À primeira música, no auge dos meus nove anos de idade, fiquei completamente rendido.

Pra quem não lembra ou nunca viu: esta é uma fita k7.Que sausdade...

Eu já sabia que eram os Beatles, já os vira na TV antes, mas aquele era meu primeiro contato formal, a primeira vez que ouvia sua músicas na íntegra, prestando total atenção. Eu não sabia nada de inglês, mas as melodias me tomaram de completo. O som carismático, contagiante, me fazia querer mais e mais e cada música me surpreendia. Acho que eu já ouvia alguma coisa de Legião nessa época, mas não tinha para mim a importância que teria dois anos depois. Portanto, acredito que os Beatles tenham sido meu primeiro contato com o rock de verdade.


 A fita do in concert que meu pai gravou foi naturalmente usurpada por mim. Ela ficava na minha mesa, junto com meus livros e meus gibis. Eu ouvia todo santo dia. Acabei buscando outras coisas deles, mas sem as facilidades da internet, só podia mesmo era esperar por mais programas como aquele para que pudesse gravar outras músicas, o que de fato aconteceu. Em menos de três meses eu tinha umas três fita com quase todas as músicas dos Beatles até o álbum Revolver. Portanto eu só conhecia a primeira fase deles, o que aqui no Brasil se poderia chamar de época do “iê, ê, iê” (quem será que inventou essa expressão ridícula?).

A segunda porrada beatlemaníaca aconteceu no ano seguinte. Na extinta rede manchete exibiram um especial com várias apresentações e videoclips dos quatro fantásticos, com um breve histórico. Aquilo foi um choque. Foi quando me dei conta de que os caras seguiram uma evolução musical e conceitual e se tornaram influência importante na cultura pop. Foi quando tive um vislumbre da magnitude do fenômeno Beatles. Tinha uma apresentação de “Hello, Goodbye”, de “Let it Be” e de “All You Need is Love”, que me parece ter sido uma das primeiras transmissões via satélite da história. Vê-los completamente diferentes, com uma outra sonoridade, mais complexa, mais instigante e misteriosa, aquilo mudou minha visão em muitos aspectos. De certa forma me fez ver que existe um monte de coisas incríveis a se descobrir, coisas que vão muito além daquilo que nos é oferecido. Coisas que nós devemos buscar descobrir por conta própria.


 Por volta de 97, a Globo exibiu um mega-documentário chamado “Anthology”, onde toda a carreira deles era devassada minuciosamente. Foi aí que vi o quanto de genialidade existia em suas visões, o quão revolucionários foram para o rock, mas também o quão humanos, portanto falhos, eles eram. Fiquei sabendo sobre a Apple, sobre a amizade de Lennon e McCartney, sobre o que significava a frase “O sonho acabou” e sobre um monte de detalhes sobre músicas pelas quais eu sempre fui apaixonado como “Strawberry Fields”, “Peny Lane” e “Sargent Peppers”. Sobre o Maharish e a lendária apresentação no telhado da gravadora Apple conhecida como “rooftop concert”, a última apresentação ao vivo dos caras , em Londres.

O Rooftop Concert

 Em 2000 foi um documentário em vídeo narrado por Malcolm McDowell ( o Alex, de Laranja Mecânica)bem menos detalhista que o Anthology. Foi nesse filme que entendi a influência de Yoko. Embora todos atribuam uma grande parcela de culpa a ela pelo fim dos Beatles, tudo o que vi e li até agora a respeito me levam a acreditar que essa idéia é um tanto exagerada.


John e Yoko por Annie Leibovitz


Todos esses contatos com os quatro rapazes de Liverpool são agora lembrados como algo mágico. Os Beatles marcaram minha vida não só por terem sido o máximo, uma grande banda, mas por muitos outros motivos. Comecei a ouvi-los quando era criança, eles despertaram em mim um interesse musical que jamais me abandonou, mas a sua história incrível e a genialidade contida nas mensagens e na simplicidade com que falavam de coisas extremamente difíceis de discutir, tais como amor, felicidade, morte e guerra, já possuem tanta relevância histórica quanto os hieróglifos egípcios e a bomba atômica.







sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

V DE VIOLÊNCIA



Nos dois últimos posts eu me referi a um monte de coisas que até agora estão me incomodando pra caramba e tive duas respostas nos comments, uma bem diferente da outra. Mas ambas me tocaram muito, pois partiram de pessoas que me fizeram sentir que realmente entenderam minhas aflições.

A Adorável desconhecida (rsrs) Fernanda acha que a felicidade não precisa ser fácil (como de fato não é!). Acredito que isso faça sentido na medida em que só damos valor àquilo que nos custa esforço e tempo para conquistar. E o meu querido amigo semi-presencial Don Carlos acha que a felicidade deveria sim ser fácil. Isso faz sentido na medida em que entendemos a felicidade como um direito do ser humano que deveria vir no kit de sobrevivência imediata, junto com o leite materno e o oxigênio.

Falei sobre máscaras, adaptações cruéis à realidade, lobisomens e tudo isso tem a ver com o fato de que é muito mais fácil nos entregarmos às condições impostas pela sociedade do que nos revoltarmos contra o que está contra nós, o que nos coloca na obrigação de nos tornarmos pessoas completamente diferentes do que gostaríamos. Você já pensou se você é a exata pessoa que gostaria de ser?

Como eu havia dito, reprimir nossas vontades, nossas aspirações pela verdadeira felicidade tendo de “adaptar” (detesto essa palavra, Darwin...) nossa personalidade às condições provoca uma certa dicotomia na alma, empurrando partes importantes do nosso eu para dentro de lugares obscuros da mente. Eu sempre (assim como Alan Moore...) imagino um prisioneiro dentro de uma cela esperando o momento certo de vingar-se dos seus algozes. O que não dá mesmo para imaginar é como será essa “vendeta”. Certamente dependerá de como a pessoa encara as adversidades, de como ela alimentou as aspirações do prisioneiro. Pois anteontem um cara chamado Clay Duke nos deu um exemplo de como essa libertação pode ser violenta.

Ex-presidiário, desesperado após a demissão da esposa, pegou uma arma e calmamente se dirigiu ao colégio em que ela trabalhava e invadiu uma reunião de conselho mandando todos saírem, exceto aqueles que considerava responsáveis pela demissão. Com um spray pintou na parede o famoso “V” com um círculo em referência ao misterioso personagem da graphic novel de Alan Moore, mais conhecida pelo grande público pela adaptação de 2006 para o cinema.



 
Clay disparou algumas vezes contra as pessoas, quase foi contido,levou um tiro na perna disparado por um segurança. Encurralado, matou-se. Obviamente a intenção de Clay não era a de matar ninguém. As balas que disparou contra as pessoas eram de festim, enquanto a que o matou era a única verdadeira. Clay não queria matar. Muito menos morrer. Ele morreu justamente porque queria viver. Ele viu tudo o que estamos vendo agora, percebeu que estamos fingindo agüentar o fato de que precisamos de tempo, espaço e oportunidades para crescer em paz.Ele queria crescer, coisa que a sociedade cobrou dele, mas não lhe deu chance para fazê-lo. Sei que parece sensacionalismo, mas o que vejo aqui é que o homem usou suas últimas forças para nos dar um importante alerta a respeito do lugar para onde estamos indo. Ele só explicitou o que acontece todos os dias o dia todo. A face violenta da civilização emerge a cada dia das mentes das pessoas sufocadas.

E eu achava que a revolução se daria no momento em que puséssemos as máscaras, tal como V,no filme e nos quadrinhos. Mas Clay Duke me fez ver que a coisa toda irá acontecer quando as tirarmos.



sábado, 16 de outubro de 2010

ESTADOS ALTERADOS DA MENTE



Acho que muita gente deve viver mais de uma vida. Não sei quão nocivo isso seja pra mente de alguém, nem se essas pessoas, como eu, admitem que não são o mesmo tipo de pessoas em todos os lugares. Mas falando por mim, não é nada, nada agradável.

Claro que ninguém gosta de admitir isso, mas a verdade é que nossa sociedade nos obriga a fazer isso. Há algumas semanas quando essa coisa da vida dupla começou a me incomodar de verdade eu fui a uma psicóloga. Disse a ela que me sentia dividido por que o trabalho que faço hoje não é o trabalho que quero fazer por toda a vida e que me dividir entre esse trabalho e a faculdade, ou seja, uma coisa que me machuca e outra que me agrada completamente, estava me deixando meio psico.

Eu sei que ela tinha a melhor das intenções, mas ela me disse tudo o que eu não queria ouvir. Ela veio com aquele papo de que os tempos mudaram, que o ser humano tem de se adaptar a essas mudanças rápidas e ser muito flexível. Como eu estava me sentindo muito mal, não consegui me expressar direito e acho que ela se sentiu um pouco ofendida com minha argumentação. Perguntei se essa “flexibilidade” não poderia ser confundida com hipocrisia. Afirmei categoricamente que se não, com certeza isso faria no mínimo um enorme estrago na alma. Quero dizer, tendo de mudar a cada dia para me adaptar às mudanças do ambiente, não irei c acordar uma bela manhã e não saber mais quem eu sou?

Ela, mesmo desconcertada pelo meu ataque disse que era perfeitamente possível ser esse camaleão sem se perder de si mesmo. Nós sabemos que isso não é verdade. Pelo menos não pra todas as pessoas. Não pra mim.

Não consigo dissociar essa visão de múltiplas vidas da interpretação que Stephen King fez do mito do Lobisomem em seu livro “Dança Macabra” (que não é um romance, mas uma análise do fenômeno do terror na cultura pop do século XX). Lá ele diz que o lobisomem representa o lado selvagem do homem normal e virtuoso. Esse lado reprimido nos calabouços obscuros da mente acaba um dia soltando suas amarras e vencendo a virtude, libertando-se faminto e furioso em busca de carne e vingança. Por isso não me lembro de nenhum momento de minha vida que tivesse sido tão “Jekill and Hyde” quanto este. E fico pensando no motivo pelo qual as pessoas (inclusive eu!) simplesmente aceitam essa condição.

Gostaria de acreditar que a boa psicóloga que visitei estivesse certa e, mesmo que eu fosse obrigado a ser uma pessoa durante o dia e outra de noite, pudesse sempre reconhecer meu verdadeiro eu. Talvez eu me sentisse mais seguro e confortável se eu tivesse certeza de que ela soubesse qual de seus inúmeros “eus” estava me atendendo naquele dia.



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

V ou Alex?



O cara da foto acima foi magistral (embora mal compreendido em sua época) em sua exposição baseada no livro de Anthony Burgess. O caminho aqui é meio diferente, mas mexe com os mesmos princípios que regem o comportamento humano. Sem firulas, isto é sobre a violência. Um dia desses eu vi na tv algo sobre justiceiros atuando no Bom Jardim. Claro que não é justificável um cara se armar e passar fogo nos "bandidos" (seja lá o que isto signifique nos dias de hoje). Mas é completamente compreensível...

Tanto em Laranja Mecânica como em V de Vingança ( uma das graphic novels mais simples e incrivelmente significativas desde as inscrições rupestres) o foco é o mesmo, mas a abordagem do personagem principal é outra. Alex quer ver o caos crescer para descobrir o novo. "O que há depois do Big Bang?". Mas V já sabe o que existe depois. Ele quer a ordem depois do caos, embora seja o caos algo necessário. Para ele está tudo calculado.

Acredito que o território aqui seja o mais propício para os dois futuros se concretizarem. O que há de diferente? Nem o fato de desligarmos a tv após o jantar e fingirmos que nada aconteceu é diferente. Um dia o negócio chega na nossa porta. Pode ser na forma de um enorme pênis de porcelana esmagando seu crânio ou o governo restringindo nossas expressões justo no momento em que precisamos gritar por mais tudo, contratando os donos do caos ("una-se a eles") para assegurar nosso bem estar, maquiado em milagre governamental.

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Quando finalmente alguém descobrir onde estamos no tempo, o primeiro que porá a máscara no rosta pensará como V ou como Alex?



domingo, 12 de setembro de 2010

TODAY YOUR LOVE..TOMORROW THE WORLD!!!!!!ramones

COMO EU E MINHA AMIGA SUE BABY CAPIVARA TEMOS MUITO O QUE CONVERSAR E POUQUÍSSIMO TEMPO PARA TAL, RESOLVI VOLTAR A ESCREVER CARTAS PRA ELA. HESITEI UM POUCO EM POSTAR A QUE VOCÊ ESTÁ VENDO ABAIXO PELO TEOR "TEORIA DA CONSPIRAÇÃO". NO ENTANTO, COMO AINDA ESTOU SEM ACESSO A COMPUTADOR E FAZ TEMPO QUE NÃO POSTO NADA, LAI-TE RAI:



Sue,

Sabe o que é incrível sobre mim na frente de um computador? Eu nunca consigo lembrar daquilo que parecia mais importante fazer quando eu estava longe dele. As idéias parecem sumir, ou mais precisamente, minha atenção fica completamente ofuscada pelo enorme aglomerado de coisas inúteis (e talvez por isso muito atraentes ) que se pode fazer num computador com internet. Quero dizer, com o monte de idéias para contos e textos para postar no blog que venho tendo, eu estou é teclando com a Díli sobre o Corta Bundas e vendo os VAGAZOIDES no Youtube!

Quando eu penso sobre todas aquelas coisas sobre as quais a gente tenta conversar (pois nunca dá tempo de ir direto ao foco...) fico imaginando que o que eu espero que aconteça é uma mega mobilização intelectual envolvendo música, cinema, TV e literatura onde pessoas como você e eu, que PRECISAM dizer alguma coisa, podem realmente se expressar, pois têm meios para isso. Aí alguém nos ouvindo enquanto divagamos no banco da praça do Liceu pode se perguntar:”Mas do que é que eles estão falando?! A internet não está aí para isso?”

Aí é que está, meu bom bisbilhoteiro da conversa alheia. No nosso caso, no meu e no seu, doce Sue, o meio não é o modo pelo qual a mensagem seria transmitida. De certo modo, o meio não seria nem mesmo como a mensagem seria transmitida, mas o meio, ensaiando uma aberração nos elementos que compõem a comunicação, é o próprio receptor da mensagem. Ele está lá, assim como o veículo, o código e a própria mensagem, mas o que ocorre é que a nossa mensagem é irrelevante para ele.

Esse nosso receptor, que apesar de funcional é um safado inútil que não entende nem se interessa pelo que temos a dizer, é alguém lá dos seus quinze anos, no mínimo, que quer tudo prontinho e detestaria pensar no por que daquela mensagem existir. Ele odeia textos longos e não sabe que existem outros tipos de abordagens temáticas na música que englobam assuntos para além da choradeira melódica envernizada de arrojo que costumeiramente se convenciona denominar de EMO. Eu diria mais, a mensagem e a forma a se configurar, pelo menos na minha mente é mais especificamente direcionada às pessoas que esses receptores serão num futuro próximo.

Nós podemos fazer muita coisa com os pouquíssimos (mas pouquíssimos mesmo) recursos que temos.Mas a importância do que temos de fazer torna a coisa toda um hercúleo desafio de renovação, ou mesmo de invenção de uma nova linguagem.

O fenômeno EMO não é em si o maior desafio porque não é o foco do problema,mas sim uma conseqüência, um efeito colateral que resvalou no nosso senso de realidade, um fragmento de todos os outros maiores e mais incômodos efeitos oriundos de uma raiz mais nociva. Sabemos que a raiz do problema, muito sutill e genialmente abordada pelo Radiohead na sequência de discos “OK Computer”, “KID A” e “Amnesiac”, é um ciclo de erros e negligências relacionadas a degradação do ente humano caracterizado pela crise na instituição familiar e resultando na formação de pessoas cada vez mais superficialistas e numa sociedade imediatista, fútil e com uma temível tendência a banalizar tabus, ser manipulada e disseminar formas em conteúdo.

Em linhas gerais, o que a gente quer, claro, não sendo rigorosamente preciso quanto aos seus objetivos pessoais, é talvez mais fundamental e menos pretenso do que o trabalho do prisioneiro liberto da caverna de Platão. Não queremos mostrar a verdade àqueles que supostamente não a conhecem, até porque nós pouco conhecemos da verdade. O nosso maior objetivo, se assim posso ousadamente falar por você, é apenas fazer frente a tudo isso. Oferecer alguma resistência. Tudo bem que os jovens de hoje não vejam relação alguma entre a política podre e a desigualdade social e sejam distantes o bastante para não raciocinarem que coisas ruins acontecem o tempo todo com as pessoas em parte porque não percebemos mesmo tal relação. Tudo bem que as pessoas não consigam entender que música, cinema e TV podem ser muito mais que só entretenimento. Tudo isso tem mesmo que existir. O problema é que não há equilíbrio. Aqueles que regem esse...sistema se é que existem, eles não possuem uma força de mesma intensidade agindo na direção oposta, eles não possuem um nêmesis.

O que queremos é isso, é existir para dar equilíbrio às coisas, mas olhamos para o lado e não vemos ninguém. Volta e meia encontramos alguém com aquele brilho no olhar que inspira cumplicidade com nossos propósitos e percebemos que, em algumas atitudes eles expressão objetivos semelhantes aos nossos. Esses são os chamados “heróis infiltrados”. Gente que parece estar agindo de acordo com o sistema, mas que na verdade o está sabotando delicadamente.

Pensar em revolução, alcançando esses níveis de mudança estrutural no zeitgeist, é sem dúvida uma utopia,mais até do que uma necessidade urgente. Mas o fato é que isso é uma necessidade urgente. Só que ela não acontecerá. Não há, pelo menos ainda, um líder ou uma idéia central, contundente e motivante e não há aquilo que parece ainda mais motivante: a figura de um inimigo. Esse algoz atual talvez esteja escondido num lugar onde os seus predecessores não puderam esconder-se, onde Hitler não pôde, onde os generais da ditadura não puderam, onde o Darth Vader ou o Big Brother do livro 1984 de George Orwell não pôde. O inimigo está em todos nós. Nos bons e nos maus, sob diversas formas. Em alguns na forma de medo, em outros na forma de vergonha, em outros na forma de conformismo, em outros na forma de pretensão. Esse facínora multifacetado conseguiu no seu mimetismo a arma mais eficaz de ação.

A suposta revolução, portanto, não se dará de forma abrupta, violenta. Ela terá de ser tão sutil quanto a situação. Ela deverá ser de dentro para fora. Então nossa primeira e maior estratégia será fortalecer o interior.

A única pergunta que me resta depois disso tudo é: “Tudo o que estamos passando, nossos fracassos, nossa consciência das deficiências e necessidades, isso tudo nos está fortalecendo interiormente?”

quarta-feira, 26 de maio de 2010