sábado, 23 de abril de 2011

Eu, REM e Meu Nonsense ou O QUE EU ESTAVA FAZENDO QUANDO...

“Seus pés irão fincar-se no chão/ Sua cabeça está aí para te mover ao redor.” Stand-faixa quatro Lado “Ar”(A).


 Ás vezes fico me perguntando onde eu estava e o que fazia quando coisas legais estavam acontecendo. Cá com minhas loucuras, penso que seria incrível se pudéssemos estar presente em vários lugares ao mesmo tempo, vivendo uma série de experiências diferentes com inúmeras pessoas diferentes, realizando uma gama enorme de tarefas sem comprometer outras, vivendo a mil por hora em um canto, descansando e filosofando em outro.

“Os sonhos/eles complicam minha vida”. Stand Up- faixa dois Lado “Ar”(A).


Uma das horas em que mais me encontro com essas divagações nonsense é aquela bendita hora em que chego da faculdade à noite. Minha esposa tem de ir para seu curso e resta a mim a tarefa de lavar os pratos. Ponho meus fones e prefiro pensar que lavo os pratos enquanto ouço música, em vez do contrário. Mecanismo de defesa contra tarefas mecânicas.

Ultimamente tenho ouvido exaustivamente o álbum Green, do REM. É um álbum incrível de 1988. Tudo o que há de melhor no REM está lá. Primeiro álbum por uma grande gravadora, a Warner. Sexto da banda que sairia do subsolo do rock com o disco seguinte, o Going Out, aquele que tem Losing My Religion. Onde eu estava em novembro de 1988 quando REM lançava o Green?


“Tudo o que você ouve é que o tempo continua a viajar/E sente tamanha e absoluta paz.”You Are The Everithing- faixa três Lado “Ar”(A)


(Imagine que está ouvindo aquele barulhinho tosco tipo “túnel do tempo”)


OH! Lá estou eu! Na lembrança mais clara que eu tenho daquele ano! Eu morava na casa da minha avó e tinha cinco anos. São mais ou menos três da tarde, acabei de acordar e não há ninguém em casa. Levanto do sofá onde dormia e vejo que há um pacote de biscoitos de chocolate para mim em cima da mesa. Apanho os biscoitos, ando pela casa. Sei que estou sozinho, mas tudo bem até aí, pois eu ainda não chegara na fase em que tinha medo de andar pela casa mesmo de dia por descobrir que os moradores antigos viam fantasmas (longa história...em outro post eu conto).

Minha avó nunca me deixava sozinho e, quando saía sem mim, não ia muito longe. Vou à porta para ver se ela estava na calçada conversando com alguém, mas encontro a porta fechada e sem a chave. Olho pelo postigo e vejo que o sol da tarde ilumina lindamente uma rua tão vazia quanto a casa. Ninguém passa por muuuito tempo. Com minha mente de criança concluo que algo está errado, ela não está por perto e ninguém mesmo está. Tento um dos poucos recursos disponíveis, que geralmente funcionava: grito por ela. Sem resposta. O vento sopra as folhas caídas do algodoeiro de Dona Margarida. Volta e meia, algum papel de xilitos, um jornal ou as folhas da árvore voam diante dos meus olhos, mas nada de minha avó. Tempos depois, grito novamente e passo a gritar mais frequentemente e mais alto. Aí vejo claramente o meu último e mais desesperado recurso, a imagem mais marcante desse dia que se passou há tanto tempo. Pego o pacote de biscoitos, coloco entre as frestas dos postigos da porta e o deixo cair na rua, na esperança de que alguém aviste a queda do objeto vermelho e venha em meu socorro. Sem resposta. Esperança quase morta.


“Diga-me como é ir lá fora/ Nunca estive lá” The Wrong Child- faixa seis Lado “Ar”(A).


Sinto um nó na garganta e uma lágrima escorrer pelo rosto. Penso que algum evento sinistro pode ter dado fim a todos os seres vivos da Terra, exceto eu (uma abdução em massa, talvez, na época eu assistia à primeira versão de V-A Batalha Final). Meu único desejo é adquirir o poder de me transformar numa névoa e me rematerializar do lado de fora, como eu via o Noturno fazer nos quadrinhos dos X-Men (na época eu gostava mais da Marvel do que da DC), mas mesmo sendo um garotinho de cinco anos bobinho, que se tornaria um adolescente bobinho e depois o adulto espetacular que eu sou, eu sei que isso jamais acontecerá. Estou preso. É meu primeiro contato com um sentimento novo: solidão. Depois aquilo se tornaria algo surpreendentemente diferente. Em alguns anos sentiria tudo de novo mais algumas vezes na vida, mas a prisão muitas vezes não teria paredes e a solidão não precisaria de ausência.
De repente, um fio de esperança corta meu soluço. Meu coração tem um sobressalto. Ouço passos na calçada. Penso que possa ser minha avozinha voltando para me salvar do cárcere, mas logo percebo que são passos muito rápidos, diferentes dos dela. Mas tudo bem, a pessoa verá o pacote de biscoitos no chão, irá parar para apanhá-los próximo à porta e poderei pedir ajuda. A pessoa se aproxima. Para. Abaixa-se para pegar os biscoitos. Bingo. Eu sabia. Ótimo plano. “Ei, moça!”, chamo enquanto ela se levanta. Ela toma um susto. Nem espera eu explicar que estou confinado. “Ah! Neném, deixou cair foi?”. Tento começar a falar, mas ela vai logo colocando o biscoito de volta pelo postigo. O pacote cai sobre meus pés. Ela some tão rápido quando apareceu. É, acabou. Estou mesmo preso. Ninguém vai me salvar.


“ Tão só, tão só em minha vida/ Alimente meus bancos de luz”- Hairshirt- faixa nove Lado “Metal” (B).


Amargo o gosto da solidão. Sento no sofá e começo a pensar como vai ser viver sozinho num mundo sem pessoas. Preso dentro de uma casa enorme, sem comida, só com água da torneira. Nunca mais verei ninguém que eu amo. Nem minha avó, nem minha mãe, nem ninguém. Nunca mais vou assistir Jaspion, nem Changemen. Nada mais de quadrinhos. Nada mais de filmes. Meus brinquedos vão ficar antigos e não vai ter mais ninguém pra me dar outros. Acabou. Tchau. Adeus. Até nunca mais. Percebo agora que naquele momento aprendi uma coisa que sei fazer muito bem e que se tornaria, em certos momentos, uma arma, em outros, uma desvantagem: papéis dramáticos.


“Eu reconheço as armas/Eu as usava bem”. World Leader Pretend- Faixa cinco do Lado “Ar”(A).


 
Ligo a TV. Bozo.

Ele, a Flor, a Vovó Mafalda e o Papai Papudo jogam Batalha Naval. Começa o desenho da “Nossa Turma” (Get Along Gang e aquela musiquinha só massa). Aprendo mais uma coisa: se um dia alienígenas invadirem a Terra e abduzirem toda a humanidade deixando só você trancado em casa, se tiver uma TV, você vai ficar numa boa.


Acho que minha avó deve ter ficado fora mais uma meia hora depois que acordei. Ela chega, abre a porta. Corro para ela chorando. Ela explica que aproveitou que eu estava dormindo, foi comprar o pão e se deteve uns instantes conversando com Dona Maria Serafin que, a propósito, era hipocondríaca e só falava sobre doenças. Acho que ela conhecia mais doenças e suas variações sintomatológicas do que jamais pude estudar em cinco anos como professor de Biologia e três anos de faculdade de Enfermagem. Sinceramente não sei se ela ainda vive. O resto da tarde correu como todas as outras. Sem absolutamente nada para fazer a não ser assistir o Bozo, brincar com meu boneco do Homem-aranha (série Guerras Secretas, da Gulliver) e ler quadrinhos. Se eu já curtisse rock na época talvez eu tivesse alguma chance de ouvir o Green.



“Eu tive minha diversão e agora é tempo/ de servir sua consciência além-mar”.- Orange Crush- faixa sete Lado “Metal” (B).


Sabe o que é mais fantástico em toda essa história sem pé nem cabeça que você inacreditavelmente teve paciência de ler até aqui? Michael Stipe e companhia jamais souberam e nem saberão sobre a existência de um garotinho cabeçudo que tinha medo de aliens e fantasmas e gostava de Bozo. Mas quando eu ouço o Green só consigo pensar em como eu amava ser aquele carinha. E também no quanto era difícil.


segunda-feira, 28 de março de 2011

O BARBEIRO E A PROSTITUTA ou A VOZ...



Corto o cabelo com o mesmo barbeiro há uns quinze anos. Sua barbearia é um monumento às figuras de todos os tons de obscuridade e humor que existem em Fortaleza. Não obstante o desfecho deste texto, ainda é por isso que vou lá uma vez por mês. Nunca conversei muito profundamente com ele. Não por timidez ou qualquer sentimento de desigualdade, mas por puro fascínio. O homem é conhecido por todos. Ladrões, trambiqueiros, camelôs, doutores, artistas, mendigos. Todas as criaturas que residem no Centro da cidade passam por lá para tomar seus conselhos, cobrar dinheiro, ou simplesmente vê-lo. Ele os recebe com toda a naturalidade de um irmão mais velho, um filho ou um pai.

Hoje estive lá e o encontrei sentado numa cadeira à porta da barbearia e o saudei com um aperto de mão. Enquanto cortava meu cabelo, comentava, como sempre, acerca de tudo o que se passava no local. Dava conselhos aos senhores que costumeiramente passam a tarde por lá lendo jornal para que deixem a bebida, contava sobre as inúmeras vezes em que esteve à beira da morte e dava receitas de bem viver às senhoras manicures que lá trabalham.


Lá pelas tantas, entra uma jovem trajando um shortinho que deixava o indecente envergonhado. Como sempre, permaneci de ouvidos atentos para entender a história que seria infalivelmente revelada por meio do diálogo dos dois. Meu caro amigo tentava ajudar a jovem prostituta a encontrar o cartório em que havia sido registrada para que regularizasse seus documentos de modo que pudesse viajar de volta à cidade do interior em que sua mãe mora, a pedido da própria. A garota dizia que gostava da vida que levava, pois junto da mãe teria de seguir regras. O Barbeiro, em sua exortação, convenceu a moça de que a vida da rua não tem futuro algum, que ela deveria aproveitar a ajuda da mãe e tentar construir algo, voltar a estudar, fazer cursos, trabalhar. E simples assim, com exposições claras, sucintas, mas num tom paternal hábil e resoluto, ausente na maioria dos pais de sangue, o homem dobrou a prostituta. Tão fácil quanto se induz alguém a fazer o que é errado, ele a persuadiu de que deveria tomar a decisão mais difícil e mais correta.

Eu costumava amar minha cidade. Ao final de minha adolescência tive um arroubo de estranha esperança nela e no povo. Não entendo, ao passar em retrospecto  minhas sensações , de onde vinha tal esperança. A resposta mais próxima a que consegui chegar foi que nessa época eu estava tão concentrado na busca de um tipo específico de vivência que não notava o contexto em que estava inserido. Eu fazia parte da paisagem da cidade, assim como os meus amigos que visitam o nosso herói. E com eles, mimetizado no mosaico de vidas que circulavam amiúde pelas ruas, eu ficava completamente satisfeito em ser parte de um organismo vivo e pulsante, uma célula num corpo em crescimento desgovernado, mas saudável. Eu era muito feliz enquanto não sabia que de saudável, a cidade não tinha (nem tem) nada.



Esta cidade tem se tornado o cú infecto de uma política burlesca e as únicas e bizarras alternativas que existem para ela é limpá-lo definitivamente ou arrombá-lo com violência. Gosto de acreditar que, se sobrevivermos à hecatombe, será por artes de vozes como a do meu oráculo. Vozes que ecoam uma natureza íntima, quase invisível, de bondade. Vozes que emulam em obstinação com a decrepitude do descaso.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BEIJA-FLOR ANIQUILADO


Há uns dias eu voltava da casa da minha sogra com minha esposa. Esperávamos o ônibus na Praça do Carlito, por volta das nove horas, quando ela me chamou atenção para uma cena triste. Um imbecil em sua moto acabara de desferir um soco na boca de uma moça com o filho nos braços. Pelo jeito como discutiam, podia-se imaginar que tinha um “relacionamento”, sei lá, talvez fossem casados. O fato é que fiquei terrivelmente incomodado com aquilo (quem não ficaria?!). Peguei meu celular e disquei o número da polícia, mas minha esposa não deixou. Claro que ela também ficou horrorizada, mas não quis que eu me metesse. Logicamente eu não iria lá, tirar satisfações com aquele covarde idiota. Afinal de contas, ele dava dois de mim e meu incisivo esquerdo não tem raiz profunda, não tô nem um pouco afim de ficar banguela neste momento. No entanto, aquilo era revoltante! Bater numa mulher já é uma covardia sem tamanho (embora saibamos que existem mulheres capazes de sair no pau com um tipo daqueles e se darem muito bem). Mas bater numa mulher com um bebê nos braços!


Apesar dos protestos de minha esposa, disse que se ele batesse novamente nela eu ligaria. Ele bateu. Deu mais um tapa e puxou o cabelo dela. Não agüentei e disquei novamente. Ela protestou mais uma vez e me agarrou pra que eu não completasse a ligação. Ela argumentou comigo dizendo que se a polícia chegasse nós teríamos de depor e fazer todos aqueles procedimentos de testemunha, o que possivelmente nos poria em risco.

O ônibus chegou nessa hora e embora eu tenha me esforçado para não ficar puto com ela, subi vermelho de raiva por não ter resistido ao argumento, certo de que iria deixar mais um covarde impune. Isso foi suficiente para que brigássemos, pois na opinião das pessoas a quem narramos o episódio, não tínhamos nada a ver com aquelas pessoas e se a moça apanhou foi por que quis, uma vez que não quisesse não teria se envolvido com um sujeito como aquele.

Eu estudo Enfermagem e meu tema de monografia (não por causa só deste caso, é lógico) será sobre violência contra a mulher. Por conta da faculdade já li vários artigos a respeito, livros, já visitei instituições e conversei com várias vítimas e sei que as coisas não são tão simples assim. Uma mulher não apanha por que é safada, sem vergonha ou por que gosta de homem que bate. Tudo isso envolve uma série de fatores, um contexto de vida em que a ela se vê não só vítima da violência, mas encurralada num ciclo de fraqueza psicológica, sentimentos e dependência financeira. Contexto esse que não foi escolhido , mas imposto a ela por sua história de vida.



As pessoas tendem a simplificar a coisa toda. Talvez para se manter em sua zona de conforto, para não se envolver com uma causa, para não se comprometer. Nisso, esses covardes, que não raro se tornam assassinos em tragédias anunciadas, seguem firmes reproduzindo a violência. Mas é mais fácil pensarmos que “não temos nada a ver com isso”, que a culpa é da vítima (como se ela estivesse realmente satisfeita com a situação, e não amedrontada por ameaças, pela dependência ou envergonhada pela humilhação).

Até agora minha esposa não sabe que não fiquei com raiva dela por ter me impedido de ligar para a polícia. Fiquei com raiva de mim mesmo por ter me deixado dobrar pelo conformismo de não me envolver. Eu sabia que poderia ter ajudado e muito. Assim como sabemos que podemos ajudar um pouco sempre. No fundo todos nós sabemos que podemos melhorar essa droga de mundo se quisermos. Mas não queremos...

Sei que talvez eu tivesse sido capaz de mostrar para aquela moça que ela e seu filho merecem e podem ter uma vida melhor. E isso faria toda a diferença. Mas é assim que a gente leva a vida. Sempre achando que é melhor não se meter nos problemas do mundo, pois isso só aumentaria os nossos próprios problemas como se não vivêssemos nesse mundo, como se não precisássemos uns dos outros. A gente tem todo dia a chance de transformar a vida das pessoas em algo melhor. Motivos não faltam para que tomemos a atitude de agir na hora certa e fazer o que tem de ser feito, mesmo que saibamos que sozinhos não salvaremos o mundo da destruição para a qual ele se dirige inexoravelmente. A velha história do beija-flor que quer apagar o incêndio...

Se algum dia você, assim como eu, teve uma dessas chances de se revoltar contra a injustiça, a covardia e a desonestidade e, como eu, não agiu sob uma justificativa qualquer e, como eu está se sentindo um grande e enorme pedaço de merda ambulante, não se preocupe: é exatamente isso que você é. E seu sentimento de culpa, assim como o meu, não vai consertar as coisas.

Não faço idéia do que tenha acontecido com a moça e seu filho. Provavelmente a mesma coisa que acontece com milhares de vítimas de violência doméstica. Voltam para casa para continuar convivendo com o agressor, temendo por sua vida e pela de seu filho, com vergonha da cena triste por que passou, rezando para que não volte a acontecer. Mas vai acontecer.



Se você conhece uma mulher que vive em situação de violência e não quer ser um enorme pedaço de merda que anda: 0800 2800804. Faça uma denúncia anônima.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Los Quatro Guapos



Havíamos comprado nosso primeiro videocassete naquele ano e só havia uma locadora no bairro. Então, todo sábado tínhamos de esperar e rezar para que nosso pai não bebesse para poder ir com a gente alugar filmes e isso era o máximo (pense!).

Eu me lembro daquela noite de 1993. Novembro ou dezembro, acho. Eu lia um gibi do Capitão América na calçada e estava ansioso para nosso programa de fim de semana preferido : alugar filmes na locadora. Na verdade,era o único programa possível naquela época de total dependência do dinheiro dos meus pais! No meu bairro sempre foi pobre em diversões para garotos da minha idade que gostavam de quadrinhos, ficção científica e não se misturava com aqueles outros meninos que diziam nomes feios e batiam uns nos outros.

Nesse dia, eu perturbei meu pai para que fôssemos logo, mas ele disse que só iria após o In Concert. Os in concert´s eram programas de uma rádio, não lembro qual, em que eles apresentavam, por uma hora ininterrupta, músicas de determinado artista. Como não tinha outra alternativa, sentei com meu gibi e esperei. Quando o programa começou, meu pai correu e pegou uma fita k7 para gravar. À primeira música, no auge dos meus nove anos de idade, fiquei completamente rendido.

Pra quem não lembra ou nunca viu: esta é uma fita k7.Que sausdade...

Eu já sabia que eram os Beatles, já os vira na TV antes, mas aquele era meu primeiro contato formal, a primeira vez que ouvia sua músicas na íntegra, prestando total atenção. Eu não sabia nada de inglês, mas as melodias me tomaram de completo. O som carismático, contagiante, me fazia querer mais e mais e cada música me surpreendia. Acho que eu já ouvia alguma coisa de Legião nessa época, mas não tinha para mim a importância que teria dois anos depois. Portanto, acredito que os Beatles tenham sido meu primeiro contato com o rock de verdade.


 A fita do in concert que meu pai gravou foi naturalmente usurpada por mim. Ela ficava na minha mesa, junto com meus livros e meus gibis. Eu ouvia todo santo dia. Acabei buscando outras coisas deles, mas sem as facilidades da internet, só podia mesmo era esperar por mais programas como aquele para que pudesse gravar outras músicas, o que de fato aconteceu. Em menos de três meses eu tinha umas três fita com quase todas as músicas dos Beatles até o álbum Revolver. Portanto eu só conhecia a primeira fase deles, o que aqui no Brasil se poderia chamar de época do “iê, ê, iê” (quem será que inventou essa expressão ridícula?).

A segunda porrada beatlemaníaca aconteceu no ano seguinte. Na extinta rede manchete exibiram um especial com várias apresentações e videoclips dos quatro fantásticos, com um breve histórico. Aquilo foi um choque. Foi quando me dei conta de que os caras seguiram uma evolução musical e conceitual e se tornaram influência importante na cultura pop. Foi quando tive um vislumbre da magnitude do fenômeno Beatles. Tinha uma apresentação de “Hello, Goodbye”, de “Let it Be” e de “All You Need is Love”, que me parece ter sido uma das primeiras transmissões via satélite da história. Vê-los completamente diferentes, com uma outra sonoridade, mais complexa, mais instigante e misteriosa, aquilo mudou minha visão em muitos aspectos. De certa forma me fez ver que existe um monte de coisas incríveis a se descobrir, coisas que vão muito além daquilo que nos é oferecido. Coisas que nós devemos buscar descobrir por conta própria.


 Por volta de 97, a Globo exibiu um mega-documentário chamado “Anthology”, onde toda a carreira deles era devassada minuciosamente. Foi aí que vi o quanto de genialidade existia em suas visões, o quão revolucionários foram para o rock, mas também o quão humanos, portanto falhos, eles eram. Fiquei sabendo sobre a Apple, sobre a amizade de Lennon e McCartney, sobre o que significava a frase “O sonho acabou” e sobre um monte de detalhes sobre músicas pelas quais eu sempre fui apaixonado como “Strawberry Fields”, “Peny Lane” e “Sargent Peppers”. Sobre o Maharish e a lendária apresentação no telhado da gravadora Apple conhecida como “rooftop concert”, a última apresentação ao vivo dos caras , em Londres.

O Rooftop Concert

 Em 2000 foi um documentário em vídeo narrado por Malcolm McDowell ( o Alex, de Laranja Mecânica)bem menos detalhista que o Anthology. Foi nesse filme que entendi a influência de Yoko. Embora todos atribuam uma grande parcela de culpa a ela pelo fim dos Beatles, tudo o que vi e li até agora a respeito me levam a acreditar que essa idéia é um tanto exagerada.


John e Yoko por Annie Leibovitz


Todos esses contatos com os quatro rapazes de Liverpool são agora lembrados como algo mágico. Os Beatles marcaram minha vida não só por terem sido o máximo, uma grande banda, mas por muitos outros motivos. Comecei a ouvi-los quando era criança, eles despertaram em mim um interesse musical que jamais me abandonou, mas a sua história incrível e a genialidade contida nas mensagens e na simplicidade com que falavam de coisas extremamente difíceis de discutir, tais como amor, felicidade, morte e guerra, já possuem tanta relevância histórica quanto os hieróglifos egípcios e a bomba atômica.







sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

V DE VIOLÊNCIA



Nos dois últimos posts eu me referi a um monte de coisas que até agora estão me incomodando pra caramba e tive duas respostas nos comments, uma bem diferente da outra. Mas ambas me tocaram muito, pois partiram de pessoas que me fizeram sentir que realmente entenderam minhas aflições.

A Adorável desconhecida (rsrs) Fernanda acha que a felicidade não precisa ser fácil (como de fato não é!). Acredito que isso faça sentido na medida em que só damos valor àquilo que nos custa esforço e tempo para conquistar. E o meu querido amigo semi-presencial Don Carlos acha que a felicidade deveria sim ser fácil. Isso faz sentido na medida em que entendemos a felicidade como um direito do ser humano que deveria vir no kit de sobrevivência imediata, junto com o leite materno e o oxigênio.

Falei sobre máscaras, adaptações cruéis à realidade, lobisomens e tudo isso tem a ver com o fato de que é muito mais fácil nos entregarmos às condições impostas pela sociedade do que nos revoltarmos contra o que está contra nós, o que nos coloca na obrigação de nos tornarmos pessoas completamente diferentes do que gostaríamos. Você já pensou se você é a exata pessoa que gostaria de ser?

Como eu havia dito, reprimir nossas vontades, nossas aspirações pela verdadeira felicidade tendo de “adaptar” (detesto essa palavra, Darwin...) nossa personalidade às condições provoca uma certa dicotomia na alma, empurrando partes importantes do nosso eu para dentro de lugares obscuros da mente. Eu sempre (assim como Alan Moore...) imagino um prisioneiro dentro de uma cela esperando o momento certo de vingar-se dos seus algozes. O que não dá mesmo para imaginar é como será essa “vendeta”. Certamente dependerá de como a pessoa encara as adversidades, de como ela alimentou as aspirações do prisioneiro. Pois anteontem um cara chamado Clay Duke nos deu um exemplo de como essa libertação pode ser violenta.

Ex-presidiário, desesperado após a demissão da esposa, pegou uma arma e calmamente se dirigiu ao colégio em que ela trabalhava e invadiu uma reunião de conselho mandando todos saírem, exceto aqueles que considerava responsáveis pela demissão. Com um spray pintou na parede o famoso “V” com um círculo em referência ao misterioso personagem da graphic novel de Alan Moore, mais conhecida pelo grande público pela adaptação de 2006 para o cinema.



 
Clay disparou algumas vezes contra as pessoas, quase foi contido,levou um tiro na perna disparado por um segurança. Encurralado, matou-se. Obviamente a intenção de Clay não era a de matar ninguém. As balas que disparou contra as pessoas eram de festim, enquanto a que o matou era a única verdadeira. Clay não queria matar. Muito menos morrer. Ele morreu justamente porque queria viver. Ele viu tudo o que estamos vendo agora, percebeu que estamos fingindo agüentar o fato de que precisamos de tempo, espaço e oportunidades para crescer em paz.Ele queria crescer, coisa que a sociedade cobrou dele, mas não lhe deu chance para fazê-lo. Sei que parece sensacionalismo, mas o que vejo aqui é que o homem usou suas últimas forças para nos dar um importante alerta a respeito do lugar para onde estamos indo. Ele só explicitou o que acontece todos os dias o dia todo. A face violenta da civilização emerge a cada dia das mentes das pessoas sufocadas.

E eu achava que a revolução se daria no momento em que puséssemos as máscaras, tal como V,no filme e nos quadrinhos. Mas Clay Duke me fez ver que a coisa toda irá acontecer quando as tirarmos.



sábado, 16 de outubro de 2010

ESTADOS ALTERADOS DA MENTE



Acho que muita gente deve viver mais de uma vida. Não sei quão nocivo isso seja pra mente de alguém, nem se essas pessoas, como eu, admitem que não são o mesmo tipo de pessoas em todos os lugares. Mas falando por mim, não é nada, nada agradável.

Claro que ninguém gosta de admitir isso, mas a verdade é que nossa sociedade nos obriga a fazer isso. Há algumas semanas quando essa coisa da vida dupla começou a me incomodar de verdade eu fui a uma psicóloga. Disse a ela que me sentia dividido por que o trabalho que faço hoje não é o trabalho que quero fazer por toda a vida e que me dividir entre esse trabalho e a faculdade, ou seja, uma coisa que me machuca e outra que me agrada completamente, estava me deixando meio psico.

Eu sei que ela tinha a melhor das intenções, mas ela me disse tudo o que eu não queria ouvir. Ela veio com aquele papo de que os tempos mudaram, que o ser humano tem de se adaptar a essas mudanças rápidas e ser muito flexível. Como eu estava me sentindo muito mal, não consegui me expressar direito e acho que ela se sentiu um pouco ofendida com minha argumentação. Perguntei se essa “flexibilidade” não poderia ser confundida com hipocrisia. Afirmei categoricamente que se não, com certeza isso faria no mínimo um enorme estrago na alma. Quero dizer, tendo de mudar a cada dia para me adaptar às mudanças do ambiente, não irei c acordar uma bela manhã e não saber mais quem eu sou?

Ela, mesmo desconcertada pelo meu ataque disse que era perfeitamente possível ser esse camaleão sem se perder de si mesmo. Nós sabemos que isso não é verdade. Pelo menos não pra todas as pessoas. Não pra mim.

Não consigo dissociar essa visão de múltiplas vidas da interpretação que Stephen King fez do mito do Lobisomem em seu livro “Dança Macabra” (que não é um romance, mas uma análise do fenômeno do terror na cultura pop do século XX). Lá ele diz que o lobisomem representa o lado selvagem do homem normal e virtuoso. Esse lado reprimido nos calabouços obscuros da mente acaba um dia soltando suas amarras e vencendo a virtude, libertando-se faminto e furioso em busca de carne e vingança. Por isso não me lembro de nenhum momento de minha vida que tivesse sido tão “Jekill and Hyde” quanto este. E fico pensando no motivo pelo qual as pessoas (inclusive eu!) simplesmente aceitam essa condição.

Gostaria de acreditar que a boa psicóloga que visitei estivesse certa e, mesmo que eu fosse obrigado a ser uma pessoa durante o dia e outra de noite, pudesse sempre reconhecer meu verdadeiro eu. Talvez eu me sentisse mais seguro e confortável se eu tivesse certeza de que ela soubesse qual de seus inúmeros “eus” estava me atendendo naquele dia.



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

V ou Alex?



O cara da foto acima foi magistral (embora mal compreendido em sua época) em sua exposição baseada no livro de Anthony Burgess. O caminho aqui é meio diferente, mas mexe com os mesmos princípios que regem o comportamento humano. Sem firulas, isto é sobre a violência. Um dia desses eu vi na tv algo sobre justiceiros atuando no Bom Jardim. Claro que não é justificável um cara se armar e passar fogo nos "bandidos" (seja lá o que isto signifique nos dias de hoje). Mas é completamente compreensível...

Tanto em Laranja Mecânica como em V de Vingança ( uma das graphic novels mais simples e incrivelmente significativas desde as inscrições rupestres) o foco é o mesmo, mas a abordagem do personagem principal é outra. Alex quer ver o caos crescer para descobrir o novo. "O que há depois do Big Bang?". Mas V já sabe o que existe depois. Ele quer a ordem depois do caos, embora seja o caos algo necessário. Para ele está tudo calculado.

Acredito que o território aqui seja o mais propício para os dois futuros se concretizarem. O que há de diferente? Nem o fato de desligarmos a tv após o jantar e fingirmos que nada aconteceu é diferente. Um dia o negócio chega na nossa porta. Pode ser na forma de um enorme pênis de porcelana esmagando seu crânio ou o governo restringindo nossas expressões justo no momento em que precisamos gritar por mais tudo, contratando os donos do caos ("una-se a eles") para assegurar nosso bem estar, maquiado em milagre governamental.

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Quando finalmente alguém descobrir onde estamos no tempo, o primeiro que porá a máscara no rosta pensará como V ou como Alex?