segunda-feira, 29 de julho de 2013

DISCUTINDO COM ORÁCULOS DURANTE O APOCALIPSE

Art by J.H.Williams III

Hoje, quando abri os olhos, tudo ainda estava uma bagunça.
Há tempos tento ajeitar as coisas, mas conserto algo aqui e algo se desfaz em outro lugar. Um mestre verdadeiro fez falta em cada momento, mas tarde me dei conta de que o melhor mestre deveria ter sido eu e minha experiência. Nunca é tarde demais para aprender, mas isso não livra a gente dos danos.
Não me restou alternativa além de levantar e continuar o destroço. Já que as coisas estão caindo, que eu mesmo destrua aquelas que estão me destruindo. Mesmo que isso signifique comprometer o resto. Então fui para o trabalho e acabei com ele. Depois fui para o lugar onde Deus e eu travamos uma eterna batalha. Eu sei que não deveria, mas fico com raiva por Ele nunca responder às minhas perguntas. Duas ou três respostas resolveriam meus problemas. Quem sabe? Mas Ele insiste nessa história de “caminhos misteriosos”.
E é por isso que recorri ao Oráculo.
Tenho vários aos quais recorro. São meros bálsamos. Paliativos. Uns mais confiáveis que outros, e este era o que eu mais costumava acreditar. Eu sei que a resposta definitiva vem só do Criador. Mas você sabe, eu sou humano.
Diante do Oráculo eu fiz as perguntas. Ele respondeu com palavras tortas, como sempre, mas respondeu. Eu tentei desentortar as palavras, mas não gostei de como ficou. Ele me disse que aquilo que mais me apaixona não me trará boa fortuna. Que aquilo que me fortalece me enfraquecerá e que não seria prudente forçar-me a tentar transpor os obstáculos.
Todos nós temos uma essência. Algo que nos define. Ás vezes demora o tempo de uma vida para entender o que é. E na maior parte do tempo, pessoas como eu, que já a encontraram ficam, por um motivo ou outro, colocando isso à prova. Mas se há algo bom em ver tudo ao redor se desfazendo é a capacidade de duvidar do destino que lhe é apresentado. Se existe essa força, que ela seja soberana.

Se algo está determinado, se caminhamos por linhas escritas de um devir inexorável, perdão eu peço a todos os Oráculos. Se essa é sua melhor resposta, serei forçado a dobrar as perguntas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

OS CORAÇÕES VOLÁTEIS

Art by Benjamin Carbonne


Está tudo no devido lugar, até o reflexo do sol nas folhas molhadas das plantas dos vizinhos. E cada passo que damos é o de um guerreiro indestrutível. Pode até haver sangue, mas no final haverá você e mais alguém.
E ela é a pessoa mais importante do mundo. Naquele dia.
As coisas mudam o tempo todo. Um dia eu tive um grande amigo. Um dia você teve um grande amor. A criança um dia coube na palma da mão.
Um velhinho contempla os degraus e se vê há cinquenta anos atrás saltando-os habilmente. O garoto forte e faceiro daquela época o olha de volta lá de cima, sorri e diz: “Esse tempo se foi, meu velho”.
Todas as coisas estiveram juntas num mesmo objeto. Uma enorme bola de energia e matéria no meio do nada que explodiu e jogou nossos pedaços espaço afora. Quem poderia saber se as moléculas que hoje me formam estariam ou não próximas daqueles que amo?
Nossos corações são inconstantes e medem a felicidade construindo calendários com os dias lindos. Esses dias se repetem continuamente como um vídeo em loop. Porque nunca é para sempre. E é assim que fica. O grande segredo reside em estar bem com revisitar o filme e deixar que outros os sucedam.

As pessoas são como aqueles rios do filósofo. Nunca as encontramos do mesmo jeito. As águas são outras, as ondas não têm a mesma forma. Mas os dias que os corações voláteis coletam não acontecem sem elas. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

UM ACEPIPE ALQUÍMICO

Foto: Baggieri- Boccassini

Esta noite compartilharei com as senhoras e senhores uma singela iguaria advinda dos escritos místicos dos antigos mestres de uma antiga arte.
Esses arcanos irmanam em idade e natureza com aqueles professados por Agripa e Flamell. São de difícil execução, secretos pelo árduo processo e quando em conjunto, suas práticas assemelham-se com a obtenção da Pedra Filosofal.
Apascentem, pois, seus corações, caros condiscípulos, que ao final desta fórmula saberão por que alcunha é conhecida tal arte nos meios ocultos e como é nomeado seu grão-mestre.
Além da aqua matter, imprescindível em todo processo alquímico, três outros elementos são necessários antes do Nigredo, isto é, do cozimento. O primeiro é a aqua lactea, sumo vital destilado pelo animal cujas culturas orientais julgam divino. O segundo, um composto artificial preparado por mãos indóceis a partir de cereais. E por último, os cristais da lua que conferem doçura a todo preparado a que são adicionados. Unindo os referidos elementos, procede-se o Albedo, isto é, a união das partes à aqua matter. Só então pode seguir-se o Nigredo.
É mister lembrar que aqua matter deve estar aquecida para suprir de Força Vital o preparado. Com a mistura, ocorre a Citrinitas e em seguida o Rubedo, isto é, a Transmutação. Ao final, o grão-mestre acondiciona a fórmula em recipiente especialmente desenhado para o consumo de um ser criado de sua própria carne e sangue, porém, infinitamente mais adorável e mimoso que um homunculus ou um Golem.
O grão-mestre oferece então o preparado nos períodos matutinos e também muito após o crepúsculo para o deleite do pequeno ser cujo regozijo fornece, a esse sacerdote e sua consorte, um gigantesco dínamo de energia superior ao que faz o Elixir da Longa Vida.
Esta, pois, meus afeitos, foi a fórmula milenar que os panteões cabalísticos batizaram com a extraordinária designação de Mingau, tal qual o fizeram aos filhos de Marte que a reconstituem como Grandes Beneméritos da Ordem dos Pais Apaixonados.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

ADENTRE O VÓRTICE parte I - MISSÃO DE NADINE

Arte de Douglas Vasconcelos


Nadine quase corria puxando seu cãozinho Fidalgo pela corrente. Ela queria muito comer um sonho naquele dia.
- Desculpa aê, meu amorzinho! – dizia ela a seu pequeno amigo ofegante.
As moedas tilintavam no bolso grande de seu macacão jeans e o suor pingava de sua fronte loira. Quando chegou à padaria, o bom padeiro  Vicente tinha um sorriso enigmático no rosto.
- Hoje é um dia especial, Nadine. – saldou-a de braços abertos por trás do balcão. – Você mataria pelos sonhos de hoje.
- Eu sei, Vicente! – ela encostou o nariz contra a vitrine do balcão salivando mais que Fidalgo ao olhar para o doce maravilhoso que brilhava à sua frente.
Ela nervosamente começou a arrancar as moedas do bolso, colocando-as no balcão sob o olhar de Vicente. Quando terminou com as moedas, sem conta-las, Vicente as apontou e disse sorrindo:
- Está faltando cinco centavos, querida.
- Ô, Vicente!- protestou ela – Você já deixou eu levar doces mais caros de graça antes!
- Desculpa, Nadine, mas esses sonhos você vai ter que pagar mesmo.
Nadine se desesperou. Acordara com um desejo imenso de comer os sonhos que o Vicente fazia. Como se sua vida dependesse daquilo. Como se toda a História da Humanidade dali para frente dependesse daquilo. Não ficou chateada com seu amigo padeiro, mas teve de recolher suas moedinhas e ir embora sem seu doce. Sentou-se de braços cruzados à uma sombra de árvore na praça. “Eu tenho que ter aquele sonho”, pensava. “Ele é meu! Eu sei que é!”
Enquanto Fidalgo cavava buracos na grama, ela ficou ali. Seu desejo foi tão grande, mas tão grande que um portal se abriu perto de onde o cachorrinho brincava e o assustou. De lá saiu um Ser. Ele vestia um elegante terno preto. Era esguio como um palhaço com pernas de pau e tinha enormes e lustrosos bigodes que emitiam ondas em forma de cacos de vidros coloridos.
- Saudações, linda garotinha! – disse o Ser.
- Olá, senhor Homem do Furacão...- respondeu ela admirada.
- Vejo que você quer algo de todo o coração. Você está pronta para pagar por isso?
- Sim. – disse ela- Mas eu não tenho todo o dinheiro e o Vicente não me deu o que eu queria.
O Ser andava ao redor dela, desajeitado com suas longas pernas como um vitral de igreja ambulante. Fidalgo teve medo dele e correu para trás de sua dona.
- Não é com dinheiro que se compram sonhos, menina. É com missões. Diga que vai cumprir a missão que vou lhe dar e terá o que quer.
- Tudo pelo que meu coração anseia, senhor Homem do Furacão.
O Ser ergueu os braços e fez aparecer um pequeno vórtice dentro de um vidrinho de maionese e o entregou nas mãos de Nadine. Disse-lhe que deveria encontrar alguém que tivesse um pé na Terra e outro nos Céus. Que ela deveria entregar-lhe o vidrinho e dizer que com aquele presente essa pessoa teria o poder de levar para dentro de sua mente aqueles que lhe despertassem as mais fortes emoções. Bastava que pensasse muito naquela pessoa e lhe dissesse em pensamento: “Adentre o Vórtice”.
Nadine se assustou com a missão que lhe foi dada. Onde raios encontraria alguém assim?
- Se você diz que o doce é seu, linda menina, basta aceitar a missão e a vida tratará de fazê-la cumprir. Você tem ou não coragem?
Ela abraçou o vidrinho com o pequeno vórtice a rodopiar lá dentro. Respondeu que sim ao se lembrar de como Vicente havia caprichado no creme. O Ser sorriu satisfeito, deu meia volta e retornou para o portal que se fechou em seguida.
Durante todo o dia Nadine e Fidalgo perambularam pelas ruas atrás de alguém que tivesse um pé na Terra e outro no Céu. Andou tanto que já estava quase desistindo. Estava cansada e começava a se entristecer, pensando que jamais conseguiria sentir o gosto delicioso daquele sonho. Mas então aconteceu que Fidalgo, que era bem safadinho, sentiu o cheiro de uma cachorrinha muito jeitosa e saiu correndo feito louco atrás dela. Nadine o seguiu correndo com o vidro na mão para pegá-lo.  
Atravessou no meio dos carros da avenida, derrubou uma barraquinha de frutas, passou por dentro da casinha de papelão de um mendigo e acabou trombando com um moço simpático que se enrolou com a coleira de Fidalgo. Os três caíram no chão e um monte de papéis voou das mãos do rapaz. Nadine aproveitou a queda e segurou a corrente de seu cachorrinho. Por muita sorte ela não deixou o vidro se quebrar. Mas ficou muito sem jeito, pediu mil desculpas a ele e o ajudou a juntar as folhas.
- O que é tudo isso? – perguntou ela.
- Não se preocupe. São apenas histórias. Se perder alguma eu invento outras.
- Uau! Você é um contador de histórias!
- Na verdade não. – respondeu ele apanhando suas folhas - Eu só as faço porque gosto muito. Se eu pudesse só faria isso o tempo inteiro. Mas não posso porque preciso trabalhar em outra coisa. É uma pena eu ter que ficar assim, dividido.
O rapaz agradeceu e continuou seu caminho. Nadine teve um estalo quando ele disse aquilo. Lembrou-se das palavras do Ser.
- Espere!- gritou ela – Eu tenho algo pra você!
Então ela lhe entregou o vórtice e explicou tudo, tal como fora mandado. O rapaz ficou aturdido com aquilo, mas aceitou o presente e foi embora.
Novamente o portal se abriu e o Ser emergiu dali com a face triunfante. Arremessou para ela uma moedinha de cinco centavos e disse:
- Todos vocês mortais estão sempre a apenas cinco centavos de ter o mais belo de seus sonhos à mão. Basta aceitar a missão.
Ele piscou, sorriu orgulhoso e sumiu de novo. Ela correu com Fidalgo até a padaria e conseguiu comprar seu tão almejado doce. Foi o mais gostoso que ela comeu na vida. É claro que deu um pedacinho para seu companheiro peludo, afinal ele a ajudou a cumprir sua estranha missão.
Nadine jamais se esqueceu do que aprendeu naquele dia. E sabia que o rapaz teria momentos mágicos com sua dádiva. E teve a certeza de que se encontrariam de novo um dia.
 [Continua.]


segunda-feira, 1 de julho de 2013

CANTIGA DE AMOR PARA MIA SENHOR

Art by Noel S. Oswald


Hoje ela é maior que tudo, mas cabe em tudo. No passado, no presente e no futuro.
Afugentou damas de névoa e trouxe consigo um chão sobre o qual eu deveria pisar. Dividiu certos mundos e destruiu outros. Descobriu salas de segredos, forçou outras a surgirem nos limbos etéreos de dimensões que ela não enxerga.
Por ela eu calei uma voz afetada. Por causa dela eu criei um idioma para mim, um para os humanos e outro para os anjos.
Senhora das coisas que podem ser tocadas. Senhora do equilíbrio. Senhora das perguntas e das batalhas. Do que sou feito, afinal? Do aço que o mundo exige ou da bruma que meu pensamento cultivou?
Não desisto mais, embora as rotas de fuga estejam ainda abertas. Para onde eu tiver de ir, deverei ter costas para carregar as nossas coisas e todo sonho precisa ter uma porta capaz de deixar que ela passe. Ainda que não passe, ainda que não me leia, ainda que só use sua línguagem enquanto as palavras mais bonitas estejam escritas no idioma dos anjos. E que do lado de fora da fortaleza as damas banidas lancem os olhares e beijos e me chamem como sereias das nuvens. Só ela existe.
Um dia ela foi inalcançável. Há provas disso. Quando vejo essas provas, sei do que posso.
E se me assoma sofrimento e dúvida, fremosa esposa e mia senhor, respiro e volto às promessas que fiz. Se foi com palavras que eu lhe trouxe, com palavras lhe hei de levar.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O CAMINHO SUAVE

Art by John Whalley


re.si.li.ên.cia 

sf (ingl resilience) 1 Ato de retorno de mola; elasticidade. 2 Ato de recuar (arma de fogo); coice. 3 Poder de recuperação. 4 Trabalho necessário para deformar um corpo até seu limite elástico.


Dizem que no pior momento, agradecer o que se tem ajuda a vencer a adversidade.
Muitas pessoas recorrem a isso. Conheço algumas. Funciona para elas, mas confesso que até agora não tentei de verdade. Minhas estratégias de resistência não são lá das melhores. Se houver guerra, não me chame para estar sobre os mapas. Prefiro ser um kamikaze. Isso não é nada esperto, mas é o que eu tenho por enquanto.
É difícil pensar quando se está no olho do furacão. A gente só pensa em fugir, em se proteger até tudo passar. Quando as coisas estão bem ruins só vem à minha mente os ensinamentos do mestre Jigoro Kano sobre os galhos mais flexíveis serem os mais resistentes. Talvez um dia eu entenda isso com o coração. Enquanto isso eu ensaio um movimento suave, como se a serenidade fosse uma arte marcial. Estou ficando velho. Um dia vou ter que aprender a fazer isso direito. E estes são meus canhestros primeiros golpes
Agradeço pela minha filha ter o sorriso desdentado mais lindo do Universo. Agradeço por minha esposa ter o sorriso dentado mais lindo do Universo. Agradeço pela risada da minha mãe ser um trovão. Agradeço por Morrissey e Dylan estarem vivos e bem. Agradeço por ter uma amiga que faz Cinema. Que droga, agradeço por todos os filhos da mãe que são meus amigos. Agradeço por meus inimigos conhecerem muitas fraquezas minhas, mas não fazerem a mínima ideia de qual é a maior delas.
Agradeço por um pequeno terreno em um planeta distante onde acredito ser um bom rei.
Agradeço por ser capaz de juntar uma palavra com a outra e dizer algo que pode ou não ser eterno. A possibilidade de que seja é o meu combustível. Se é pequena ou grande, foda-se. Eu amo isso.
Agradeço pelas pessoas que me enchem o saco de verdade sempre perceberem que estou prestes a lhes meter a mão na fuça. Eu jamais faria isso, sou contra violência. Mas eles não sabem.
Agradeço pelo Superman ter finalmente derrotado o Apocalipse. Até aquela versão inteligente que o Darkside criou dele lá pelo número 43.
Agradeço por ter uma ideia de Deus que nem a minha religião, nem a sua, nem ninguém consegue abalar. E mesmo quando eu mesmo ponho em xeque essa ideia, alguma coisa acontece e me faz acreditar mais ainda.
Não sei se funcionou.
Foi um alívio rápido certamente. Como dizem os otimistas, há sempre o que agradecer. Eu não faço parte deles ainda, mas tenho de admitir que, pelo menos nisso, eles tem razão. Se vai resolver meus problemas isso não dá pra dizer agora. Mas vai ajudar muito se eu puder finalizar isso assim...
“Agradeço por você estar se sentindo bem neste exato momento.”



es.pe.ran.ça 
sf (de esperar) 1 Ato de esperar. 2 Expectativa na aquisição de um bem que se deseja. 3 Aquilo que se espera, desejando. 4 A segunda das três virtudes teologais, simbolizada por uma âncora ou pela cor verde. 5 Entom Nome comum a vários gafanhotos, da família dos Tetigonídeos, os quais possuem asas anteriores verdes, antenas setáceas, geralmente muito mais longas que o corpo. Apresentam o fenômeno do mimetismo. Antôn (acepção 1): desespero. E. em verde:esperanças de realização duvidosa. Andar ou estar de esperanças: estar no período da gravidez. Dar esperanças: a) incentivar as aspirações de alguém; b) dar mostras de vir a ser distinto em alguma coisa.
(Dicionário Michaelis On Line)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

EU NÃO ESTOU LÁ...


Isto não deveria ser tão pessoal. Mas não há mais gritos a serem dados além deste, porque eu mudei de luta há tempos. De qualquer forma, por isso mesmo este é um grito no vácuo, como tantos outros. Ou uma mensagem numa garrafa atirada ao mar...
Em algum lugar mais ou menos distante eles estão nas ruas. Estão apaixonados pela causa, talvez não a deem um nome, mas é uma causa. Eles estão lá por mim também. Pela minha esposa, por minha filha e por minha mãe. Eu vejo tudo em silêncio. As mentiras e verdades escolhidas para vermos e engolirmos, mas o sentido de tudo, aquele que tentei negar por tanto tempo, está lá e consigo enxerga-lo claramente. Sonhei muito com este dia. Amei os momentos em que passei a idealizar esta época sem imaginar que não iria participar de nada. Talvez tudo tenha sido tão bonito justamente por eu achar que seria impossível.
Mas eles estão lá. Como sempre estiveram. Só que agora são muitos. Do jeito que pensei. Flores erguidas diante de escudos, o gesto de sentar e negar-se a agredir quem lhe agride. E também aqueles que atiram pedras e bombas. Coisas voam pelo ar, atingem carne e machucam. O calor da guerra, uma avenida, princípios esquecidos, princípios lembrados, valores mantidos.
Meu coração diz que nada muda como nunca mudou. Cresceu em mim uma ideia de que a única mudança é interior e o único grupo revolucionário capaz de causar verdadeiras transformações é a família. Mas, que droga, isso tudo precisa acontecer. Mesmo que no fim eu apenas desligue a TV e vá dormir.
Os meus passos marcam uma dança desconhecida, um caminho que não deixa de ser perigoso por eu não estar lá. E sinto como se tivesse ajudado a começar o distúrbio, como se fosse inimigo daqueles que um dia quis ajudar, pois tenho um pressentimento muito vivo de que vai crescer até chegar a mim. E os meus passos irão desviar a trilha para evitar ver o que vai ser então? 

Parece que uma nova história começou a ser escrita. Talvez meus pensamentos sejam sementes, talvez sejam uma chave. Ainda são somente imagens e estou no meio daqueles que fingem não ver as nuvens no horizonte. E enquanto o colosso se move eu me divido. Uma faca atravessa meu coração e me machuca profundamente, pois em sua lâmina há algo escrito que se espalha pelo sangue como um veneno: “Eu não estou lá”.