sábado, 23 de abril de 2011

Eu, REM e Meu Nonsense ou O QUE EU ESTAVA FAZENDO QUANDO...

“Seus pés irão fincar-se no chão/ Sua cabeça está aí para te mover ao redor.” Stand-faixa quatro Lado “Ar”(A).


 Ás vezes fico me perguntando onde eu estava e o que fazia quando coisas legais estavam acontecendo. Cá com minhas loucuras, penso que seria incrível se pudéssemos estar presente em vários lugares ao mesmo tempo, vivendo uma série de experiências diferentes com inúmeras pessoas diferentes, realizando uma gama enorme de tarefas sem comprometer outras, vivendo a mil por hora em um canto, descansando e filosofando em outro.

“Os sonhos/eles complicam minha vida”. Stand Up- faixa dois Lado “Ar”(A).


Uma das horas em que mais me encontro com essas divagações nonsense é aquela bendita hora em que chego da faculdade à noite. Minha esposa tem de ir para seu curso e resta a mim a tarefa de lavar os pratos. Ponho meus fones e prefiro pensar que lavo os pratos enquanto ouço música, em vez do contrário. Mecanismo de defesa contra tarefas mecânicas.

Ultimamente tenho ouvido exaustivamente o álbum Green, do REM. É um álbum incrível de 1988. Tudo o que há de melhor no REM está lá. Primeiro álbum por uma grande gravadora, a Warner. Sexto da banda que sairia do subsolo do rock com o disco seguinte, o Going Out, aquele que tem Losing My Religion. Onde eu estava em novembro de 1988 quando REM lançava o Green?


“Tudo o que você ouve é que o tempo continua a viajar/E sente tamanha e absoluta paz.”You Are The Everithing- faixa três Lado “Ar”(A)


(Imagine que está ouvindo aquele barulhinho tosco tipo “túnel do tempo”)


OH! Lá estou eu! Na lembrança mais clara que eu tenho daquele ano! Eu morava na casa da minha avó e tinha cinco anos. São mais ou menos três da tarde, acabei de acordar e não há ninguém em casa. Levanto do sofá onde dormia e vejo que há um pacote de biscoitos de chocolate para mim em cima da mesa. Apanho os biscoitos, ando pela casa. Sei que estou sozinho, mas tudo bem até aí, pois eu ainda não chegara na fase em que tinha medo de andar pela casa mesmo de dia por descobrir que os moradores antigos viam fantasmas (longa história...em outro post eu conto).

Minha avó nunca me deixava sozinho e, quando saía sem mim, não ia muito longe. Vou à porta para ver se ela estava na calçada conversando com alguém, mas encontro a porta fechada e sem a chave. Olho pelo postigo e vejo que o sol da tarde ilumina lindamente uma rua tão vazia quanto a casa. Ninguém passa por muuuito tempo. Com minha mente de criança concluo que algo está errado, ela não está por perto e ninguém mesmo está. Tento um dos poucos recursos disponíveis, que geralmente funcionava: grito por ela. Sem resposta. O vento sopra as folhas caídas do algodoeiro de Dona Margarida. Volta e meia, algum papel de xilitos, um jornal ou as folhas da árvore voam diante dos meus olhos, mas nada de minha avó. Tempos depois, grito novamente e passo a gritar mais frequentemente e mais alto. Aí vejo claramente o meu último e mais desesperado recurso, a imagem mais marcante desse dia que se passou há tanto tempo. Pego o pacote de biscoitos, coloco entre as frestas dos postigos da porta e o deixo cair na rua, na esperança de que alguém aviste a queda do objeto vermelho e venha em meu socorro. Sem resposta. Esperança quase morta.


“Diga-me como é ir lá fora/ Nunca estive lá” The Wrong Child- faixa seis Lado “Ar”(A).


Sinto um nó na garganta e uma lágrima escorrer pelo rosto. Penso que algum evento sinistro pode ter dado fim a todos os seres vivos da Terra, exceto eu (uma abdução em massa, talvez, na época eu assistia à primeira versão de V-A Batalha Final). Meu único desejo é adquirir o poder de me transformar numa névoa e me rematerializar do lado de fora, como eu via o Noturno fazer nos quadrinhos dos X-Men (na época eu gostava mais da Marvel do que da DC), mas mesmo sendo um garotinho de cinco anos bobinho, que se tornaria um adolescente bobinho e depois o adulto espetacular que eu sou, eu sei que isso jamais acontecerá. Estou preso. É meu primeiro contato com um sentimento novo: solidão. Depois aquilo se tornaria algo surpreendentemente diferente. Em alguns anos sentiria tudo de novo mais algumas vezes na vida, mas a prisão muitas vezes não teria paredes e a solidão não precisaria de ausência.
De repente, um fio de esperança corta meu soluço. Meu coração tem um sobressalto. Ouço passos na calçada. Penso que possa ser minha avozinha voltando para me salvar do cárcere, mas logo percebo que são passos muito rápidos, diferentes dos dela. Mas tudo bem, a pessoa verá o pacote de biscoitos no chão, irá parar para apanhá-los próximo à porta e poderei pedir ajuda. A pessoa se aproxima. Para. Abaixa-se para pegar os biscoitos. Bingo. Eu sabia. Ótimo plano. “Ei, moça!”, chamo enquanto ela se levanta. Ela toma um susto. Nem espera eu explicar que estou confinado. “Ah! Neném, deixou cair foi?”. Tento começar a falar, mas ela vai logo colocando o biscoito de volta pelo postigo. O pacote cai sobre meus pés. Ela some tão rápido quando apareceu. É, acabou. Estou mesmo preso. Ninguém vai me salvar.


“ Tão só, tão só em minha vida/ Alimente meus bancos de luz”- Hairshirt- faixa nove Lado “Metal” (B).


Amargo o gosto da solidão. Sento no sofá e começo a pensar como vai ser viver sozinho num mundo sem pessoas. Preso dentro de uma casa enorme, sem comida, só com água da torneira. Nunca mais verei ninguém que eu amo. Nem minha avó, nem minha mãe, nem ninguém. Nunca mais vou assistir Jaspion, nem Changemen. Nada mais de quadrinhos. Nada mais de filmes. Meus brinquedos vão ficar antigos e não vai ter mais ninguém pra me dar outros. Acabou. Tchau. Adeus. Até nunca mais. Percebo agora que naquele momento aprendi uma coisa que sei fazer muito bem e que se tornaria, em certos momentos, uma arma, em outros, uma desvantagem: papéis dramáticos.


“Eu reconheço as armas/Eu as usava bem”. World Leader Pretend- Faixa cinco do Lado “Ar”(A).


 
Ligo a TV. Bozo.

Ele, a Flor, a Vovó Mafalda e o Papai Papudo jogam Batalha Naval. Começa o desenho da “Nossa Turma” (Get Along Gang e aquela musiquinha só massa). Aprendo mais uma coisa: se um dia alienígenas invadirem a Terra e abduzirem toda a humanidade deixando só você trancado em casa, se tiver uma TV, você vai ficar numa boa.


Acho que minha avó deve ter ficado fora mais uma meia hora depois que acordei. Ela chega, abre a porta. Corro para ela chorando. Ela explica que aproveitou que eu estava dormindo, foi comprar o pão e se deteve uns instantes conversando com Dona Maria Serafin que, a propósito, era hipocondríaca e só falava sobre doenças. Acho que ela conhecia mais doenças e suas variações sintomatológicas do que jamais pude estudar em cinco anos como professor de Biologia e três anos de faculdade de Enfermagem. Sinceramente não sei se ela ainda vive. O resto da tarde correu como todas as outras. Sem absolutamente nada para fazer a não ser assistir o Bozo, brincar com meu boneco do Homem-aranha (série Guerras Secretas, da Gulliver) e ler quadrinhos. Se eu já curtisse rock na época talvez eu tivesse alguma chance de ouvir o Green.



“Eu tive minha diversão e agora é tempo/ de servir sua consciência além-mar”.- Orange Crush- faixa sete Lado “Metal” (B).


Sabe o que é mais fantástico em toda essa história sem pé nem cabeça que você inacreditavelmente teve paciência de ler até aqui? Michael Stipe e companhia jamais souberam e nem saberão sobre a existência de um garotinho cabeçudo que tinha medo de aliens e fantasmas e gostava de Bozo. Mas quando eu ouço o Green só consigo pensar em como eu amava ser aquele carinha. E também no quanto era difícil.


sábado, 9 de abril de 2011

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF...



Eu escrevo desde 1996. Comecei com um diário tolo sobre uma jovem e dissimulada donzela por quem era encantado, amor o qual eu considerava impossível, irrealizável. Ou, se preferir o termo clicherizado, um amor platônico. Era um diário que eu escrevia para Deus. Ele respondeu ao meu coração me fazendo enxergar a verdadeira face por trás dos olhos verdes de minha donzela, endurecendo um pouquinho o mesmo coração juvenil com uma vontade mais ardente, o que depois eu iria descobrir ter sido o início da longa caminhada que me levaria àquela que é hoje minha esposa.

“Voa como uma borboleta e pica como uma abelha.” Era o que diziam de Mohamed Ali, o lendário lutador de boxe outrora chamado Cassius Clay. E é o que penso de sua escrita. Do longínquo 96 (quando, imagino, você nem tinha nascido ainda) até hoje tento responder uma questão fundamental e difícil para aqueles que escrevem.

A questão, segundo um velho amigo meu, é: estamos amadurecendo ou endurecendo? São coisas que só o futuro pode dizer. Escrever é o modo que temos para comparar o que pensávamos com o que pensamos e constatarmos a verdade sobre o que as intempéries da vida fazem com nossa mentalidade.

O que acho completamente desconcertante nos seus textos é o modo delicado e cândido com o qual você destila um cinismo lírico, uma arrogância, uma petulância muito serena contra o destino ao qual você se opõe. Isso seria, a meu ver, genial, se eu não lhe conhecesse. Desde o longínquo 96 busco a maturidade necessária para controlar características tão paradoxais na expressão verbal, mas o amadurecimento que eu busco é justamente o endurecimento que lhe arrebata. Tão natural. Quase insensível, mas muito, muito tocante.

Há algo de Rimbaud. Muito de Wilde. E você é tão jovem...

Minha escritora favorita de todo o mundo é a Virginia Woolf. Lembro que me apaixonei por Virginia porque ela tinha exatamente as mesmas características que admiro na sua literatura. E hoje, você é a escritora que mais me dá prazer de ler. Você escreve pouco. São pequenos textos, pequenos lampejos de um espírito intempestivo e de uma mente que parece trabalhar a mil num universo onde todas as ondas se propagam numa velocidade de lentidão aterradora. Hoje você é minha Virginia. Te ler é ter aquela dorzinha legal de quando o pé fica dormente. Você tenta nem respirar para que a sensação não se espalhe por seu corpo e te tome por completo, mas algo lá no fundo quer é se jogar completamente dentro dela.

Eu só queria que tudo o que te deu isso fosse ficção apenas. Que a violência fosse inventada. Que as feridas fossem tatuagens. Que as lágrimas fossem suor e a inquietude fosse só simples, pura e incontrolável excitação.

O chato é que a gente escreve justamente por que a coisa toda não é assim...

Se você pudesse encontrar um poço de leveza, se achasse o caminho, eu poderia acreditar que o Deus da chuva traz esse choro do céu pra lavar nossas almas. E quando a chuva passasse o Sol traria nova vida ao espírito.

Vai ver que é assim. Vai ver que é isso que Ele tem a nos dizer todos os dias. Mas o mundo nos faz enxergar outras coisas. Se você fosse leve, eu deixaria de enxergar o mundo que fere. Porque suas palavras são doces, mas falam de coisas amargas.

Queria que você fosse leve. Para que eu também pudesse ser.