sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BEIJA-FLOR ANIQUILADO


Há uns dias eu voltava da casa da minha sogra com minha esposa. Esperávamos o ônibus na Praça do Carlito, por volta das nove horas, quando ela me chamou atenção para uma cena triste. Um imbecil em sua moto acabara de desferir um soco na boca de uma moça com o filho nos braços. Pelo jeito como discutiam, podia-se imaginar que tinha um “relacionamento”, sei lá, talvez fossem casados. O fato é que fiquei terrivelmente incomodado com aquilo (quem não ficaria?!). Peguei meu celular e disquei o número da polícia, mas minha esposa não deixou. Claro que ela também ficou horrorizada, mas não quis que eu me metesse. Logicamente eu não iria lá, tirar satisfações com aquele covarde idiota. Afinal de contas, ele dava dois de mim e meu incisivo esquerdo não tem raiz profunda, não tô nem um pouco afim de ficar banguela neste momento. No entanto, aquilo era revoltante! Bater numa mulher já é uma covardia sem tamanho (embora saibamos que existem mulheres capazes de sair no pau com um tipo daqueles e se darem muito bem). Mas bater numa mulher com um bebê nos braços!


Apesar dos protestos de minha esposa, disse que se ele batesse novamente nela eu ligaria. Ele bateu. Deu mais um tapa e puxou o cabelo dela. Não agüentei e disquei novamente. Ela protestou mais uma vez e me agarrou pra que eu não completasse a ligação. Ela argumentou comigo dizendo que se a polícia chegasse nós teríamos de depor e fazer todos aqueles procedimentos de testemunha, o que possivelmente nos poria em risco.

O ônibus chegou nessa hora e embora eu tenha me esforçado para não ficar puto com ela, subi vermelho de raiva por não ter resistido ao argumento, certo de que iria deixar mais um covarde impune. Isso foi suficiente para que brigássemos, pois na opinião das pessoas a quem narramos o episódio, não tínhamos nada a ver com aquelas pessoas e se a moça apanhou foi por que quis, uma vez que não quisesse não teria se envolvido com um sujeito como aquele.

Eu estudo Enfermagem e meu tema de monografia (não por causa só deste caso, é lógico) será sobre violência contra a mulher. Por conta da faculdade já li vários artigos a respeito, livros, já visitei instituições e conversei com várias vítimas e sei que as coisas não são tão simples assim. Uma mulher não apanha por que é safada, sem vergonha ou por que gosta de homem que bate. Tudo isso envolve uma série de fatores, um contexto de vida em que a ela se vê não só vítima da violência, mas encurralada num ciclo de fraqueza psicológica, sentimentos e dependência financeira. Contexto esse que não foi escolhido , mas imposto a ela por sua história de vida.



As pessoas tendem a simplificar a coisa toda. Talvez para se manter em sua zona de conforto, para não se envolver com uma causa, para não se comprometer. Nisso, esses covardes, que não raro se tornam assassinos em tragédias anunciadas, seguem firmes reproduzindo a violência. Mas é mais fácil pensarmos que “não temos nada a ver com isso”, que a culpa é da vítima (como se ela estivesse realmente satisfeita com a situação, e não amedrontada por ameaças, pela dependência ou envergonhada pela humilhação).

Até agora minha esposa não sabe que não fiquei com raiva dela por ter me impedido de ligar para a polícia. Fiquei com raiva de mim mesmo por ter me deixado dobrar pelo conformismo de não me envolver. Eu sabia que poderia ter ajudado e muito. Assim como sabemos que podemos ajudar um pouco sempre. No fundo todos nós sabemos que podemos melhorar essa droga de mundo se quisermos. Mas não queremos...

Sei que talvez eu tivesse sido capaz de mostrar para aquela moça que ela e seu filho merecem e podem ter uma vida melhor. E isso faria toda a diferença. Mas é assim que a gente leva a vida. Sempre achando que é melhor não se meter nos problemas do mundo, pois isso só aumentaria os nossos próprios problemas como se não vivêssemos nesse mundo, como se não precisássemos uns dos outros. A gente tem todo dia a chance de transformar a vida das pessoas em algo melhor. Motivos não faltam para que tomemos a atitude de agir na hora certa e fazer o que tem de ser feito, mesmo que saibamos que sozinhos não salvaremos o mundo da destruição para a qual ele se dirige inexoravelmente. A velha história do beija-flor que quer apagar o incêndio...

Se algum dia você, assim como eu, teve uma dessas chances de se revoltar contra a injustiça, a covardia e a desonestidade e, como eu, não agiu sob uma justificativa qualquer e, como eu está se sentindo um grande e enorme pedaço de merda ambulante, não se preocupe: é exatamente isso que você é. E seu sentimento de culpa, assim como o meu, não vai consertar as coisas.

Não faço idéia do que tenha acontecido com a moça e seu filho. Provavelmente a mesma coisa que acontece com milhares de vítimas de violência doméstica. Voltam para casa para continuar convivendo com o agressor, temendo por sua vida e pela de seu filho, com vergonha da cena triste por que passou, rezando para que não volte a acontecer. Mas vai acontecer.



Se você conhece uma mulher que vive em situação de violência e não quer ser um enorme pedaço de merda que anda: 0800 2800804. Faça uma denúncia anônima.

6 comentários :

Carlos Alberto disse...

"No fundo todos nós sabemos que podemos melhorar essa droga de mundo se quisermos. Mas não queremos..."

Suzana Capivara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Suzana Capivara disse...

Sim, sabemos que podemos melhorar o mundo, também sabemos que podemos conscientizar as pessoas de suas opções de escolha e suas consequências, mas numa democracia é cada um que escolhe o próprio caminho, só podemos ir até onde a liberdade do outro nos permite...

Suzana Capivara disse...

Tem um programa no Afeganistão que está fazendo o maior sucesso e é sobre violência doméstica, as mulheres usam uma máscara metade azul que representa a burca e metade branca que representa a inocência perdida!

Juliana Lopes disse...

Eu sei bem o que é isso!Cresci vendo minha mãe apanhar do meu pai, sem motivos.Muitas vezes ele chegava em casa bêbado trancava ela no quarto e batia muito nela, e depois que passava o efeito da bebida ela pedia desculpas, e agia como se nada tivesse acontecido.Isso era muito constrangedor para mim, pois todos os vizinhos sabiam comentavam, mas ninguém fazia. Minha mãe não fazia nada! Ela acabou se acomodando nessa rotina mesmo não precisando do meu financeiramente.

Laah disse...
Este comentário foi removido pelo autor.