sábado, 10 de abril de 2010

EU DANÇO SOZINHO

                                   
Quando fico em casa pela manhã me sinto extremamente sozinho. Minha esposa trabalha até ás 15 horas e nesses dias de folga não consigo imaginar como alguém que planeja tanto seus momentos de lazer pode ficar tão perdido com o pouco e precioso tempo que tem pra ficar sem fazer nada de “importante”.

Quando estou atolado de trabalho e cheio de coisas da faculdade pra fazer fico só pensando nos filmes que tenho pra assistir, nas minhas revistas em quadrinhos que estão na gaveta ainda no plástico, nos livros que comprei ou que peguei na biblioteca, nas idéias para histórias de terror que eu gostaria de escrever. Mas na hora não vem nada, é como se minha mente ficasse vazia e nada disso existisse em minha vida.

Quando tento refletir sobre as causas desse estranho fenômeno concluo parcialmente que a presença da minha mulher é tão importante em casa que quando ela não está eu perco um pouco o sentido de fazer qualquer coisa (aposto que se você é uma menina que está me lendo pensou:”que bunitim...”, mas é precisamente isso, mais constatação que romantismo mesmo, embora ele exista em intensidade considerável, você ficaria surpresa, mas enfim...).

Então, acontece aquela coisa incrível de você se deixar levar pelo tédio. Nem sempre sai muito o que preste disso (meu caso) mas quando você passa a se observar, percebe que existem certos aspectos da sua própria personalidade que provavelmente jamais alguém conhecerá (e isso deve ser um daqueles mecanismos de defesa identificados por Anna Freud, sei lá...a gente esconde por puro instinto de sobrevivência). Posso citar alguns meus porque se você me conhece sabe que sou desajeitado e pagar um mico a mais ou a menos não fará diferença. Por exemplo, quando eu vou me enxugar depois do banho, sempre uso a mesma sequência. Quando estou lavando os pratos a noite, às vezes fico muito, mas muito tempo mesmo olhando pro céu (a nossa pia é no quintal, precisa ver como é difícil fazer isso quando está chovendo. Não é nada agradável). Aí fico olhando a imensidão e imagino que estou naquela estação espacial do filme “2001” do Kubrick, mas sem o computador assassino, claro.

Outra coisa que só faço sozinho é ficar olhando meus livros durante HORAS. Não sei, mas eles estarem lá é como se os escritores morassem comigo. Eu amo meus livros de paixão. Quando os observo lá arrumadinhos, minha mente voa tanto quanto ao lê-los. Fico só imaginando como era a vida do Kafka, penso que ele devia ser um cara bem desastrado e inseguro como eu, brigando consigo mesmo o tempo todo. Tenho um carinho muito grande pela figura desse cara. Aí tem aqueles mais pomposos como Goethe. O cara fez parte dos Illuminati, meu. Isso é que é ter uma vida incrível. E tome tempo eu olhando pros livros. Ficar assim, lesado com as coisas, é o que mais me caracteriza.


Mas o mais louco é esse. Geralmente, quando ficar sozinho começa a me angustiar e vejo que vou passar a manhã sem fazer nada de interessante pelo menos pra mim e a hora de ir pra faculdade já está chegando, quase sempre resolvo meu problema assim: vou na minha mesa, abro minha bolsa e pego meu pen drive. Como já estou lá mesmo, aproveito e pego uns cd´s que não ouço há tempos. Ligo o sonzinho e meto um Clash, Ramones, Sex Pistols ou mesmo uns hard tipo Hendrix ou Zeppelin. Mas tem dias que um Chuck Berry basta a manhã toda. Dependendo do grau de intimismo em que eu esteja pode rolar Smiths, The Cure ou Radiohead. Bem, não importa o que esteja rolando, eu danço sozinho mesmo. ..e canto...


Claro que é extremamente tosco, mas talvez no final das contas tudo esteja lá pra despertar ações espontâneas do corpo e o que flui naturalmente, desconcertante, cafona ou que for, é sempre o mais adequado. E é claro que existem muito mais coisas que eu só faço sozinho. Mas a grande viagem é que esse tipo de pequenos comportamentos integralmente individuais, não compartilhados até mesmo com os mais íntimos, são sinais que podem nos fazer pensar que podemos há coisas que o tempo, as circunstâncias e as pressões da vida adulta jamais irão tirar de nós.

4 comentários :

Carlos Alberto disse...

"Eu danço sozinho
Não, não venha me chamar"
E com este título estranhamente lembrei de um refrão de uma música de uma banda que nem existe mais.

Maruska disse...

ED,oi estou viciada em ler seu blog é como se de uma forma lê-lo eu estivesse conversando com você e aprendendo mais.Pois nisso tem a compensação da nossa ausência um com outro.

dilidevo disse...

jurei q ia ser a única a escrever aqui, mas qdo cheguei o canto já estava preenchido. isso é bom p vc!q coragem em divulgar os medos e solidão. solidão na maior parte da vida. medo em muitas coisas. queria dizer mais, mas faltam palravras. pior q n vem nem emprestadas!

myllis L disse...

às vezes faço isso, e ainda tenho uma guitarra imaginária. Bah!