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Metropolis, Fritz Lang |
O trabalho dignifica o homem.
Eis um aforismo dos mais verdadeiros. Antes de ter um trabalho de verdade eu encarava essa
máxima como o lema de homens fortes, com grossas botas e luvas carregando sacos
para dentro e para fora de navios num porto, ou daqueles que operam com
precisão braços gigantes balançando vigas de metal nas construções. Homens que
erguem cidades com a força dos músculos e voltam para casa com sua missão
cumprida.
Para eles a vida é difícil, mas a sensação de estarem
impressos nas armações sobre as quais os donos do controle esquematizam o
destino da Civilização já é grande recompensa. Eles chegam em casa cansados e
com fome. Irão se refestelar com uma montanha de comida em seus pratos e
descansar. Era uma imagem “romantizada”
do que significava trabalho para mim.
Mais tarde, a alucinada histeria de Chaplin apertando
porcas na ânsia de vencer a máquina manchou esse romantismo.
Acabei adquirindo pelo menos o mínimo de pensamento
crítico a ponto de questionar tudo o que compõe a realidade ao meu redor.
Embora meu apuro nesse sentido sofra muito com minha tendência particular a dar
o fora dessa realidade por períodos inconstantes, permaneço no mundo objetivo
tempo o bastante para precisar seguir algumas... regras...que ele impõe.
Trabalhar é uma delas. Para ganhadores do Big Brother,
loterias, heranças trilhardárias e para o tio do Chris (aquele que come o angu
com queijo do Julius), essa regrinha não entra na cartilha. Para o resto de nós
ela vem logo depois da Lei da Gravidade.
Minha relação com o trabalho acabou me fazendo separar os
diversos tipos de emprego em duas categorias: os trabalhos de verdade e os trabalhos
legais. Como força física nunca foi um dos meus atributos pessoais, fui
forçado pela minha condição a aceitar que quando chegasse a hora precisaria
encontrar um trabalho de legal. Mas
parte do meu mundo tinha como referência de pensamento uma figura paterna machista
e reacionária que deixaria Kafka com as calças sujas, e isso me fez sentir um
pouco diminuído. “Trabalho de verdade é pra homem”, dizia o subtexto de seu
discurso, “você é homem ou não?!”
Juro que se foi uma afronta, ela foi fruto total do
subconsciente, mas para a raiva do sujeito acima citado, acabei me formando em
Enfermagem. Ha ha ha.
O trabalho legal
é aquele em que o tempo passa e você não percebe que está trabalhando. Ele é
parte de você como seus braços e pernas. A minha ideia é a de que todo mundo
que tem um trabalho de verdade, dentro
de si tem um trabalho legal com o
qual sempre sonhou. Eu tenho o meu. Não
vou dizer qual é, mas ele inclui poder levantar do meu lugarzinho e brincar uns
cinco minutinhos com minha filha, ou dar um beijo em minha esposa sempre que tiver
vontade.
Outra coisa que penso é que todo emprego considerado trabalho de verdade para alguém é o
considerado trabalho legal por outra
pessoa. Se for assim, o que faz uma pessoa ficar por anos fazendo algo que não
gosta, ou que não é o que sempre quis? Por que essa pessoa não foi na direção
que levava ao seu objetivo principal? Cada um tem a sua resposta. Só posso dar
a minha: é porque ninguém prepara a gente para se descobrir. Somos “educados”
em grande parte para obedecer sem questionar, seguir caminhos instituídos,
aparentemente mais seguros, garantia de sucesso. Até o momento em que um
Chaplin entra em nossa vida, muita coisa já está definida. Muitas vezes é
difícil ou tarde demais (será?) para voltar atrás.
Graças a Deus, o meu trabalho
legal é algo que eu posso fazer de madrugada, de manhã antes do trabalho de verdade e no meio do
trabalho quando meus chefes não estão (como agora e em um post anterior, por
exemplo), embora nem sempre eu possa ver minhas mulheres.
Mas se eu tivesse moral para dar conselhos, daria apenas
um. Essa é a mensagem que eu quero deixar para a posteridade e espalhá-la para
o máximo de pessoas possível: NÃO TOME
ATALHOS. Isso mesmo. Descubra o seu caminho e vá direto para ele. Faça o
que for necessário, mas nunca dê um passo que lhe ponha distante de seu
objetivo. Não importa o que digam. Vão dizer que você não vai conseguir, que é
difícil, que não vai dar dinheiro. Ignore isso. Continue.
No final das contas, não importa se seu trabalho legal é se ver numa construção,
numa neurocirurgia ou escrevendo um romance. De muitas formas diferentes, o
suor deve escorrer pela testa do mesmo jeito. Se não for assim não vale a pena.
E tem que ter seu coração ali.
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