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Art by Sophie Blackall |
Ele
morava na casa ao lado. Não da minha casa. Da casa dos meus pais. Eu não morava
lá, e sim com minha avó, alguns metros à frente. Para todos ele era um catador
de lixo idoso e ranzinza que morava num casebre caindo aos pedaços com um
quintal lotado de quinquilharias. Para mim ele era uma entidade indecifrável.
Um
dia ele passou com sua carroça. O som das rodas era a trovoada dos passos de
uma marcha de titãs. Eu estava sentado na calçada à espera de um amigo
prometido pelo destino quando ele parou e pousou seu severo olhar sobre minha
pequenez. A barba profética, grisalha pertencia a Zeus ou a quem quer que
resida em pergaminhos. Pôs a mão no interior da carroça e sacou um imenso livro
de capa vermelha. Uma enciclopédia. Abriu aleatoriamente e apontou a gravura de
um homem primitivo diante de um lagarto gigante, sua lança em riste, pronta
para lhe acertar a garganta.
-
Era assim antigamente. – Disse. Seu dedo sujo parecia tão grosso quanto o
tronco de uma árvore. – Eles brigavam com os monstro. Colocavam uma pedra
amarrada num pau pra se defender.
Estremeci.
Homens e monstros sobre o mesmo chão lutando pela sobrevivência. Formaram-se
eras inteiras de uma história paralela em minha mente sobre como os humanos
chegaram até aqui através de florestas, desertos e mares lotados de portentos
ameaçadores.
-
Fica com ele uns dias. – disse ele – Depois tu me devolve.
Por semanas
eu comi aquela enciclopédia no lanche, no almoço e na janta.
Havia
uma seção que me absorvia por horas. Uma figura do fundo do mar mostrando um
homem nadando em trajes de navegador, sorrindo com um olhar
absorto. Ao fundo um grupo de sereias. O título da seção dizia: “Mitos e Lendas
do Mundo”. Era a parte que eu mais gostava. A noite ficava com medo dos
gigantes, ogros, harpias. Podiam mesmo tais seres extraordinários ter tomado o
mesmo lugar que nós na Criação?
Tempos
depois o homem e sua horda de titãs invisíveis voltou e reclamou seu livro.
Levou-o embora deixando um duelo entre as duas pessoas completamente diferentes
para decidir qual delas se ergueria para a vida a partir dali.
Um
dia fui até minha avó, tomado pela avidez suscitada pela dúvida, a mente vibrava
ante a revelação que poria fim à grande luta.
-
Domá, o que é um mito? – perguntei.
Esse
foi o momento em que poderia ter nascido um garoto de mente objetiva e prática,
capaz de enxergar o mundo com a segurança e a nitidez que protegem as coisas
tangíveis. Ou um devaneador quixotesco afeito a transformar nuvens em pégasos.
- Um
mito... – refletiu ela com o indicador sobre o lábio. Pensou por uns instantes
e concluiu – Um mito é uma coisa que ninguém sabe se é verdade ou mentira.
Se
minha avó tivesse respondido o que está nos dicionários, o garoto objetivo
teria se erguido. Mas naquele dia, e para sempre, os exércitos dos cavalos
alados venceram.
Um comentário :
:'(
Lindo, Ed!!!!
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