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By Edward Gorey |
Aquele
que rege o jogo tem um formidável senso de humor.
Ele
mexe as peças e escarnece um pouco de nós quando olhamos nos olhos daquela
pessoa logo após ela nos adivinhar o pensamento. Parece até mentira o modo como
certas linhas, por mais tortuosas que sejam, conseguem parar nos lábios,
palavras e ações de outra pessoa segundos antes da gente poder articulá-las. E
milhares daquelas linhas corriam paralelas às minhas em perfeita sincronia,
como se fossem de uma mesma pessoa.
Os
anos se sucedem, as razões se atropelam. Sentimentos são cultivados e crescem
como pequenos e adoráveis monstros que se brinca e quer jogar fora quando
começam a ficar grandes e perigosos. Alguns você simplesmente consegue jogar na
privada e dar a descarga, como as velhas lendas de crocodilos nos esgotos. No
meio da noite quase se pode ouvi-los rosnando em algum lugar abaixo de nossos
pés. Mas é necessário atenção. Muitos deles crescem a ponto de não descerem
mais. E ficam. Outros retornam das profundezas e te devoram. Disfarce-os,
chame-os de lições, esconda-os. Se tudo o mais der errado, escreva.
A
gente cruza com alguém na rua e algo em seu olhar a denuncia. Um sorriso, um
meneio, qualquer gesto nos diz que as coisas que ela esconde são irmãs das nossas.
As pessoas se entendem através do que escondem. As conversas mais sublimes são
lembradas pelo que não se diz. E, que droga, é possível que muita gente esteja
pensando agora mesmo que aquela conversa nunca mais se repetiu. Que precisa
sentir aquilo de novo. Porque tudo isso é muito raro. Os pequenos e mortificantes
momentos de beleza que envolvem o contato verdadeiro entre duas pessoas. A
beleza nisso é rara, rápida e quase inacreditável.
Eu
também sou uma sombra toda feita de palavras. Um construtor de ironias. Alimento
e aqueço entidades. Elas estão em lugares distantes abrindo brechas para o
acaso. Como o Acendedor de Lampiões, mantenho para elas e outras a missão de
não deixar a tênue luz do Sonho se apagar.
E
Destino, o mais velho dos Eternos, continua lendo as páginas mais interessantes
de seu livro misterioso. Desespero e Desejo estão por perto, mas mesmo assim,
prefiro acreditar no que Delírio diz sobre isso...
Mas
aqui estamos, você em seu esconderijo, eu com meus disfarces de névoa. Do nosso
jeito, conspiramos o caminho dos fatos. Uma vez vítimas, outra vez algozes. Sempre
vivos.
Igrejas,
mesquitas, pirâmides. Que importa onde as Almas se cruzam?
Que as pessoas se encontrem. Que criem belos
segredos. Que moldem seus sonhos e os deixem invadir a realidade dos outros.
Que haja anarquia nas proximidades da fronteira entre devaneio e verdade. No
meio do combate, nossas palavras se chocam e faíscam como as espadas dos
guerreiros. Somos os guardiões oníricos de uma astúcia esquecida.
As
vidas que criamos são o sustentáculo da história. Sorria, Madame. Sorria.
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