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By Edward Gorey |
Nos idos de 2003, 2004 eu fazia um fanzine maluco chamado Plano 9 com meu amigo Cabelo. Vendíamos
por R$ 0,50 lá pelas bandas do Benfica e aquilo foi a única coisa na vida que
eu já tive a coragem e o prazer de vender. Detesto vendas, eu não conseguiria
vender um copo d’água para alguém perdido num deserto. Mas o fato é que
andávamos muito por aí atrás de tirar cópias desse fanzine e numa dessas
andanças eu tive a sorte de topar com um extraordinário tesouro.
Haveria um ZINE-SE (tradicional encontro de fazedores de fanzines) no
Centro de Humanas da UECE. Combinamos de juntar uma grana para vender lá todos
os números que havíamos produzido até então, mais um que estávamos produzindo
naquele momento. Só que não tínhamos nem metade dos textos produzidos, então
foi uma correria desgraçada para aprontar tudo até aquela noite. Telefonamo-nos
à tarde e combinamos de nos encontrar em um lugar qualquer do Centro do qual
não me recordo agora.
Eu estava mal com o pessoal lá de casa (pra variar...) e
não tinha nenhum puto além do dinheiro das cópias. Por isso, tive de ir a pé
(pra variar de novo...). Sempre que estou de cabeça cheia procuro ir pra um
lugar onde eu possa ficar completamente quieto, sem pensar em nada, só
respirando, pelo menos por uns minutinhos. Quase sempre esse lugar é a Igreja
de São Benedito, na Rua Bárbara de Alencar, um hábito que minha grande amiga
Sue também compartilha e que mesmo com quase vinte anos de amizade só descobri
agora, mas enfim...
Pois nesse dia, em meio a toda a pressa em que eu estava,
desviei o caminho para meu esconderijo e sentei lá, no silêncio gostoso do
lugar e tentei me esvaziar para poder seguir. Baixei minha cabeça e fiquei assim
por uns quinze minutos. Quando senti que poderia continuar o dia sem precisar
matar ninguém, levantei a cabeça e peguei minhas coisas. Foi quando avistei um
embrulho no chão da igreja, embaixo de um acento a uns três metros de mim.
Olhei para um lado e outro e não havia absolutamente ninguém por perto. Fui até
lá e peguei o embrulho. Saquei imediatamente que se tratava de um caderno. Estava
enrolado cuidadosamente em um tecido xadrez. Deu a maior vontade de abrir logo,
mas fiquei com medo do dono chegar de repente e pensar que eu estava roubando.
Resolvi procurar alguém da paróquia e deixar o pacote sob seus cuidados para
poder ir embora. Rodei o lugar inteiro, mas não encontrei ninguém mesmo,
parecia um episódio de Além da Imaginação em que todas as pessoas da Terra
somem. Como eu já estava apressado sentei novamente e desembrulhei a coisa. Em
parte para encontrar um nome ou telefone pra que pudesse devolvê-la, em parte
porque sou mesmo muito xereta e não estava mais me aguentando pra saber o que
era aquilo.
Tive dificuldade para desamarrar o barbante, puxei o
estilete com o qual cortava os zines e taquei nos nós. Quando desembrulhei o
caderno, um bilhete caiu no meu colo. Peguei para ler e o que tinha escrito logo
no envelope me fez ter vontade de agarrar tudo aquilo e sair correndo em vez de
tentar devolver ao verdadeiro dono. Era uma citação da música “Nowhere Fast” dos Smiths.
Reconheci de cara porque amo Smiths de uma forma
que prefiro nem comentar. E sabe o que eu fiz? Eu agarrei os cadernos e
literalmente saí correndo dali. Fiquei bem caladinho, não comentei com ninguém.
Fui fazer o que tinha de fazer eufórico, louco pra chegar em casa e explorar
meu achado. Participamos do ZINE-SE, vendemos tudo e quando terminou eu tinha
dinheiro para pegar o ônibus. Quando cheguei em casa me internei no quarto para
ler. Aquilo mudou MUITA coisa...
Era um caderno daqueles grossos, com a capa coberta
com jornal (que me inspirou a fazer o mesmo com o diário que eu mesmo escrevia
na época). Estava todo escrito da primeira à última página com uma letra quase
ilegível, como se a pessoa não tivesse a menor intenção de se fazer entender,
como se escrevesse para si mesma e só. Era possível apenas inferir que se
tratava também de um diário, mas não apenas isso. Era um compêndio de textos
escritos com incrível avidez ao longo de um ano e meio (setembro de 2000 a
março de 2002) e ali estavam contos, poemas, partes de roteiros, letras de
músicas conhecidas e outras que até hoje me parecem de autoria própria. Grande
parte daquilo eu nunca consegui decifrar. Mas o bilhete deixado estava mais ou
menos legível, como meus caríssimos poderão averiguar logo abaixo.
Uma ajudinha para
quem não consegui ler:
” A quem encontrar...
Talvez um dia, quando este mundo tiver um pouco mais de
brilho, você possa me devolver meus escritos para que eu me lembre de quem fui.
Porque ninguém que eu conheço jamais me verá de novo ou ouvirá falar de mim.
Essas são as únicas lembranças de quem fui.
Este é meu único legado. Não estou morta. Não da maneira conhecida por
todos. Mas peço que seu coração seja capaz de proteger este pequeno pedaço de
vida.
Suzie Mendes"
Não fui procurar a pessoa em questão, pois me
pareceu bem claro que ela não queria ser encontrada. Imaginei mil coisas, que
ela fugiu, desapareceu, se suicidou. Pensei em ligar para a polícia, mas algo
me dizia que não era a coisa certa a fazer. Que o certo seria cumprir minha
pequena missão e guardar com meu coração o meu tesouro, achando que o acaso me
levara até ele.
Mas parece que não...
Ao longo desses quase dez anos algumas coisas
misteriosas aconteceram. Mas duas em especial me deixam grilado até hoje. Um
dia, poucos meses depois de encontrar o caderno, sentei numa cabine individual
da Biblioteca Pública Menezes Pimentel e encontrei um trecho de um verso de
poema dela escrito a lápis: “Oh, Lenora, Lenora! Teu nome é uma mentira.”
Embaixo, uma data e um horário. Daquele mesmo dia. Vinte minutos antes de eu
chegar.
Fiquei com o coração na boca. Achei que talvez ela
estivesse por ali, então fui até a recepção e perguntei ao guarda se ele viu
quem estava naquela mesma cabine antes de mim e ele respondeu que não. Fui às
cabines vizinhas e perguntei às pessoas se viram alguém por ali, responderam o
mesmo. Aquilo me tirou a concentração para o estudo. Então decidi ir pra casa e
voltar depois com uma câmera para registrar o escrito, mas quando voltei só
encontrei um borrão na parede. Alguém apagara o verso.
A outra foi um conto em um fanzine literário de uma
moça que publicava textos de diversos colaboradores que eu lia assiduamente. Lá
estava o nome da criatura, mas apenas guardei o exemplar, sem ir atrás de saber
a origem do texto. Só que alguém que não posso revelar o nome, tempos depois,
disse que viu o envelope no qual o conto chegou e reconheceu meu endereço.
Lógico que não falei nada pra essa pessoa sobre o que eu sabia, apenas a deixei
pensar que eu enviara o conto com um pseudônimo e recebi o elogio.
Nem sei por que resolvi contar isso agora. Não
conheço Suzie Mendes além do que ela mostrou em seus textos. Não tenho nada
além deles a não ser um nome e todos os sentimentos bons, ruins, místicos e frenéticos
que alguém quis escrever para si mesma e então atirar assim no mundo.
Algo me faz desconfiar que de que fui escolhido
para encontrar os escritos. Eu poderia estar com medo de algo, talvez pela gigantesca
estranheza de tudo isso. Acho tenho sim, um pouco de medo. Mas uma força maior
que esse medo me move aqui: minha curiosidade patológica. Senhorita Mendes
escolheu a pessoa certa...
Se você estiver lendo isto, Suzie, peço perdão. Chegou
o momento de dividir um pouco desse tesouro. Mas é claro que você sabia que um
dia isso iria acontecer.
[continua no próximo post...]
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