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By Edward Gorey |
"Dia 22 de novembro - 2001
Ontem R.(*) veio me ver de novo.
Foi difícil pra caramba encará-lo depois de tudo. O tempo, todo mundo diz, cura
qualquer ferida. Mas parece que algumas feridas só aumentam com o tempo. Mas,
sei lá. Ontem ele estava feliz, parecia mais leve. Tentou não falar de passado.
Ficou meio [indecifrável]. Acho que ele só queria me ver de novo. Nossa, se ele
soubesse o quanto eu também precisava vê-lo. Eu sei que é egoísmo, acho que é
coisa de mulher. Quando estou no pior momento é só nele que eu penso. Pra ele
eu sou tão especial quanto jamais me achei. E por quê? Tenho me perguntado isso
ao longo dos últimos quatro anos e a única resposta que tenho é que eu acho que
ele enxerga em mim uma coisa maravilhosa que nem mesmo eu consigo enxergar. Bom
menino. Desta vez ele saiu sem me beijar. Passou [indecifrável] tempo. Será que
se apaixonou por outra? Se isso aconteceu, o que será de mim? E se isso não
aconteceu, o que será dele?
Assim que ele saiu fui até as coisas bobinhas
que eu escrevia no colégio. Tava tudo rasgado e empoeirado, uma bagunça. Um dia
vou ter minha casa e toda a joça que eu escrevo vai ter um lugar. Peguei um
bloquinho de 98. Minha letra era muito pior que hoje (risos). Mas [indecifrável].
De repente tive um tipo de pequena iluminação legal sobre ele lendo essa coisa
que foi uma das poucas realmente maduras. Percebi que ele é a única pessoa que
me faz ser melhor, escrever melhor, pensar com mais calma. Foi logo que ele me
mandou a primeira carta depois de me dizer que me amava. Como todo o caderno
estava bem ferrado, resolvi arrancar o trecho e colar aqui:
[trecho escrito no papel anexo]
Não consigo acreditar nisso. Nunca pensei
sequer em ser amigo dele. Nunca pensei em ter alguém como ele na minha vida. O
que vou fazer, meu Deus? O menino abriu o coração pra mim. E meus problemas são
tão diferentes dos dele! Calma Suzete, calma. Você vai só parar e respirar e
vai escrever de volta. Deixa a coisa fluir e de repente você vai dizer o que é
necessário. Ele escreveu aquilo com o coração. Merece uma resposta de
coração. As linhas escritas com o
coração são um caminho para ele. A coisa mais adorável a se fazer em qualquer
momento é seguir o rastro deixado por elas. Só fique fria, tá bem?
[fim do trecho]
Muita coisa aconteceu na minha vida e na
dele. Ele nunca mais foi o mesmo depois daqueles tiros. Foi tudo muito
complicado e pra variar eu não estava lá, mas sim preocupada com meus
problemas. Que droga. Eu sou tão idiota. Porque hoje eu queria. Queria que ele
tivesse me beijado. Por que diabos ele me respeita tanto? R., seu besta. Não
tem um jeito dele perceber que eu não mereço a redoma perfeita que ele
construiu pra mim. Acho que ninguém mais vai me amar como ele me ama."
Por motivos muitíssimos pessoais escolhi reproduzir aqui uma das página-diário da Senhorita Suzie Mendes.
Para minha sorte a que eu precisava tomar a liberdade de expor era justamente
uma das menos comprometedoras e só precisei suprimir um nome (marcado com *).
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