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Arte de Douglas Vasconcelos |
Nadine
quase corria puxando seu cãozinho Fidalgo pela corrente. Ela queria muito comer
um sonho naquele dia.
-
Desculpa aê, meu amorzinho! – dizia ela a seu pequeno amigo ofegante.
As
moedas tilintavam no bolso grande de seu macacão jeans e o suor pingava de sua
fronte loira. Quando chegou à padaria, o bom padeiro Vicente tinha um sorriso enigmático no rosto.
-
Hoje é um dia especial, Nadine. – saldou-a de braços abertos por trás do
balcão. – Você mataria pelos sonhos de hoje.
- Eu
sei, Vicente! – ela encostou o nariz contra a vitrine do balcão salivando mais
que Fidalgo ao olhar para o doce maravilhoso que brilhava à sua frente.
Ela
nervosamente começou a arrancar as moedas do bolso, colocando-as no balcão sob
o olhar de Vicente. Quando terminou com as moedas, sem conta-las, Vicente as apontou
e disse sorrindo:
-
Está faltando cinco centavos, querida.
- Ô,
Vicente!- protestou ela – Você já deixou eu levar doces mais caros de graça
antes!
-
Desculpa, Nadine, mas esses sonhos você vai ter que pagar mesmo.
Nadine
se desesperou. Acordara com um desejo imenso de comer os sonhos que o Vicente
fazia. Como se sua vida dependesse daquilo. Como se toda a História da
Humanidade dali para frente dependesse daquilo. Não ficou chateada com seu
amigo padeiro, mas teve de recolher suas moedinhas e ir embora sem seu doce.
Sentou-se de braços cruzados à uma sombra de árvore na praça. “Eu tenho que ter
aquele sonho”, pensava. “Ele é meu! Eu sei que é!”
Enquanto
Fidalgo cavava buracos na grama, ela ficou ali. Seu desejo foi tão grande, mas
tão grande que um portal se abriu perto de onde o cachorrinho brincava e o
assustou. De lá saiu um Ser. Ele vestia um elegante terno preto. Era esguio
como um palhaço com pernas de pau e tinha enormes e lustrosos bigodes que
emitiam ondas em forma de cacos de vidros coloridos.
-
Saudações, linda garotinha! – disse o Ser.
-
Olá, senhor Homem do Furacão...- respondeu ela admirada.
-
Vejo que você quer algo de todo o coração. Você está pronta para pagar por
isso?
-
Sim. – disse ela- Mas eu não tenho todo o dinheiro e o Vicente não me deu o que
eu queria.
O
Ser andava ao redor dela, desajeitado com suas longas pernas como um vitral de
igreja ambulante. Fidalgo teve medo dele e correu para trás de sua dona.
-
Não é com dinheiro que se compram sonhos, menina. É com missões. Diga que vai
cumprir a missão que vou lhe dar e terá o que quer.
-
Tudo pelo que meu coração anseia, senhor Homem do Furacão.
O
Ser ergueu os braços e fez aparecer um pequeno vórtice dentro de um vidrinho de
maionese e o entregou nas mãos de Nadine. Disse-lhe que deveria encontrar alguém
que tivesse um pé na Terra e outro nos Céus. Que ela deveria entregar-lhe o
vidrinho e dizer que com aquele presente essa pessoa teria o poder de levar
para dentro de sua mente aqueles que lhe despertassem as mais fortes emoções.
Bastava que pensasse muito naquela pessoa e lhe dissesse em pensamento:
“Adentre o Vórtice”.
Nadine
se assustou com a missão que lhe foi dada. Onde raios encontraria alguém assim?
- Se
você diz que o doce é seu, linda menina, basta aceitar a missão e a vida
tratará de fazê-la cumprir. Você tem ou não coragem?
Ela
abraçou o vidrinho com o pequeno vórtice a rodopiar lá dentro. Respondeu que
sim ao se lembrar de como Vicente havia caprichado no creme. O Ser sorriu
satisfeito, deu meia volta e retornou para o portal que se fechou em seguida.
Durante
todo o dia Nadine e Fidalgo perambularam pelas ruas atrás de alguém que tivesse
um pé na Terra e outro no Céu. Andou tanto que já estava quase desistindo.
Estava cansada e começava a se entristecer, pensando que jamais conseguiria
sentir o gosto delicioso daquele sonho. Mas então aconteceu que Fidalgo, que
era bem safadinho, sentiu o cheiro de uma cachorrinha muito jeitosa e saiu
correndo feito louco atrás dela. Nadine o seguiu correndo com o vidro na mão
para pegá-lo.
Atravessou
no meio dos carros da avenida, derrubou uma barraquinha de frutas, passou por
dentro da casinha de papelão de um mendigo e acabou trombando com um moço
simpático que se enrolou com a coleira de Fidalgo. Os três caíram no chão e um
monte de papéis voou das mãos do rapaz. Nadine aproveitou a queda e segurou a
corrente de seu cachorrinho. Por muita sorte ela não deixou o vidro se quebrar.
Mas ficou muito sem jeito, pediu mil desculpas a ele e o ajudou a juntar as
folhas.
- O
que é tudo isso? – perguntou ela.
-
Não se preocupe. São apenas histórias. Se perder alguma eu invento outras.
-
Uau! Você é um contador de histórias!
- Na
verdade não. – respondeu ele apanhando suas folhas - Eu só as faço porque gosto
muito. Se eu pudesse só faria isso o tempo inteiro. Mas não posso porque preciso
trabalhar em outra coisa. É uma pena eu ter que ficar assim, dividido.
O
rapaz agradeceu e continuou seu caminho. Nadine teve um estalo quando ele disse
aquilo. Lembrou-se das palavras do Ser.
-
Espere!- gritou ela – Eu tenho algo pra você!
Então
ela lhe entregou o vórtice e explicou tudo, tal como fora mandado. O rapaz
ficou aturdido com aquilo, mas aceitou o presente e foi embora.
Novamente
o portal se abriu e o Ser emergiu dali com a face triunfante. Arremessou para
ela uma moedinha de cinco centavos e disse:
-
Todos vocês mortais estão sempre a apenas cinco centavos de ter o mais belo de
seus sonhos à mão. Basta aceitar a missão.
Ele
piscou, sorriu orgulhoso e sumiu de novo. Ela correu com Fidalgo até a padaria
e conseguiu comprar seu tão almejado doce. Foi o mais gostoso que ela comeu na
vida. É claro que deu um pedacinho para seu companheiro peludo, afinal ele a
ajudou a cumprir sua estranha missão.
Nadine
jamais se esqueceu do que aprendeu naquele dia. E sabia que o rapaz teria momentos
mágicos com sua dádiva. E teve a certeza de que se encontrariam de novo um dia.
[Continua.]
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